Você leu o livro narrado por um menino Asperger?

por: Marilice Costi

O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon, livro premiado, é um livro que nos deixa com desejo de parar de ler a cada término de capítulo, porém, não se consegue e engatamos no capítulo seguinte. É um romance policial leve e instigante, excelente para iniciantes na temática do Autismo e magnífico para já iniciados.

Christopher é um jovem com Transtorno de Asperger (Autismo de Alto Funcionamento) que encontra o cachorro da vizinha morto e começa a investigar o fato após ter sido acusado do crime e ter sido preso. Há suspeitos e pistas, porém, o diferencial está na forma como ele se relaciona com tudo isso e no modo como o autor utiliza de recursos gráficos para nos tornar empáticos ao jovem. Suas dificuldades comportamentais e de interação com os outros - o pensamento literal, a dificuldade de se colocar no lugar do outro, a incompreensão de expressões faciais são facilmente compreendidas no decorrer da leitura.

A forma narrativa na primeira pessoa nos faz cúmplices do rapaz. Quem cuida dele é o pai que, após se separar da mãe. Escolhemos o trecho abaixo para mostrar um pouco do sentimento da mãe.

Eu não era uma boa mãe, Christopher. (...) mas as coisas são do jeito que são. (...) Fiquei sem poder andar direito por um mês inteiro, você se lembra? E seu pai teve de tomar conta de você. Me lembro olhava para vocês dois, via vocês juntos e pensava como você era realmente diferente com ele. Você ficava sempre mais tranquilo. E não ficavam berrando um com o outro. Isso me deixou triste porque era como dizer que na verdade você não precisava de mim. E, de certo modo, era ainda pior do que eu e você ficarmos brigando o tempo todo, porque era como se eu tivesse ficado invisível.(...) Eu queria me despedir. (...) Mas quando telefonei para seu pai, ele disse que não podia voltar. (...) Eu não sabia o que fazer. Ele disse que eu estava sendo egoísta e que nunca mais pusesse os pés em casa. Então não voltei mais. Mas escrevi todas estas cartas. (HADDON, 2008, p. 145-150)

Nessa relação, o autor dá importantes lições de convivência e de respeito com as diferenças, além de penetrar em assuntos universais como o simples desejo humano de compreender o universo e os seres humanos.