Unidas as asas, quanto poderemos fazer?

por: Marilice Costi
  • Preciso tomar um café! Vamos? Senti na voz que aquele convite tinha algo mais. A mãe precisava conversar, precisava mais que meus ouvidos, estava exausta.

A mãe acolhera seu filho com esquizofrenia refratária novamente. Queria tentar mais uma vez morar com ele. Eu a avisara dos riscos, já conhecia as dificuldades com esse transtorno. preciso tentar, ela repetiu, se não der, vou mudar a rota total. Mas tenho que tentar, é meu filho.

Há aproximadamente um mês, ele fora internado por uns quinze dias e voltara para casa. A mãe sempre com esperança.

  • - Mas ontem, disse-me ela, ele me esbofeteou duas vezes, quebrou um ventilador, ameaçou me matar... - e foi quando vi o seu rosto roxo maquiado para tapear as marcas.

E pensei imediatamente em levá-la na Delegacia da Mulher. Mas de que jeito se ele era inimputável...

Mais tarde, escrevi para ela no Facebook: Não sei o que seria de nós todas, mães de pessoas tão instáveis, se não fossem as mães amigas ao nosso redor... Somos os anjos da guarda uma da outra. 

E ela me respondeu: Somos anjos de uma asa só. Juntas podemos voar!

Sua frase me fez pensar muito. Anjos que protegem, que estão perto... mas sempre faltando uma asa, limitadas para voar.

As mulheres, especialmente as mães com filhos com deficiências, adquirem sabedoria no cuidado, desenvolvem muito a empatia.

Quem são essas mulheres que tem o compromisso e a responsabilidade de cuidar de alguém dependente, frágil, mas que pode colocar a sua vida em perigo. Que amor é este?

  • O Arquétipo da Mulher Selvagem
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    Clarissa Pinkola Estes traz  em seu livro (veja abaixo) o arquétipo da Mulher Selvagem. De poderosa natureza psicológica e instintiva, a Mulher Selvagem tem uma força que a acompanha. Pode ser considerada a psique natural, com uma natureza básica e inerente nas mulheres. Essa mulher é citada em várias áreas: na psicanálise, pode ser considerada o id, de Self, de natureza medial, e ainda, de natureza típica ou fundamental na Biologia. Ela é de natureza sábia, conhece e, muitas vezes é considerada uma mulher "que mora no final do tempo" ou "que mora no fim do mundo".

    Eu diria que é pode ser mulher além de seu tempo, pois compreende, percebe, cuida de modo a surpreender a muitos, a prever futuros administrando problemas e encontrando soluções. "Ela é amiga e mãe de todas as que se perderam, de todas as que precisam aprender, de todas as que têm um enigma para resolver, de todas as que estão lá fora na floresta ou no deserto, vagando e procurando". (ESTES, 1994, p. 11)

    A amizade entre essas mulheres que se ligam pelas suas dores, pelos seus cuidados intensivos e exaustivos, angustiantes e familiares, são dessas mães onde a liga é mais do que uma relação de amizade, ela é de cumplicidade, solidariedade, comprometimento, presença.

  • De onde vem a força
  • Selvagens mulheres, mas com uma asa a menos como disse a mãe acima, é a mulher cuidadora, mãe de alguém que dela dependerá por toda a vida. Ela sabe que, ao se aproximar de outra mulher cuidadora, tornar-se-á mais forte.
  • Essa mulher selvagem é também aquela que se encontra como em um bosque, ao lado de outras árvores, que se ligarão entre si devido ao tamanho de suas raízes. Essa liga, comum aos grupos com membros em situações similares, é feita de um afeto incondicional e resulta em uma relação de amizade genuína.

    Mulheres, também podem ser árvores que se unem e cuidam com sua sombra e alimento. E acolhem outras, é seu papel de cuidadora. Árvores, metáforas, símbolos do cuidador marcantes na revista O Cuidador, muito nos ensinam. Dão oxigênio, flores e frutos, protegem do sol e da chuva, fornecem elementos importantes na indústria (seringueira, por exemplo), acolhem ninhos e animais, crianças ao treparem em seus galhos desenvolvem a motricidade. São muitas as possibilidades... Mas não podem ser ocas, vazias. É quando essas árvores foram dominadas por parasitas. Poderão perder a seiva e a força de seus galhos, secarem sem cumprirem seu ciclo de vida.

  • Cuidadoras intensivas, árvores que adoecem são como os anjos que perderam as asas. E nem percebem que estão perdendo, adoecendo, entrando em exaustão e preparando a morte. Essas mulheres não busca ajuda para si, mas para quem cuidam. Imaginam elas que isso é fundamental. Não é. Como poderão seguir cuidando se estão frágeis, escapando de seu Arquétipo?

    Nosso projeto desde o século passado é para cuidar dessas mães. Elas tanto precisam... E por que não buscam?

    • Marilice Costi participa do Movimento Pró-Vida Assistida, que teve início num grupo de mães de pessoas com transtorno mental a queres construir uma casa. Era 2007. Em 2011, o grupo ganhou nome e lutou pela regulamentação das moradias privadas em Porto Alegre. Aqui suas publicações, além das demais no Nosso Blog - ESCRITOS, ARTES & CUIDADOS. Conheça mais da autora do Cuidaqui, aqui

    Bibliografia

    ESTES, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Trad. Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.