Um grande menino e o meu Natal

por: Marilice Costi

Quando nos relacionamento com alguém com transtorno significa que teremos que construir aquela relação de modo diverso do que somos acostumados, teremos que entender aquela relação do ponto de vista do outro, conviver com muita empatia e dar muito sem pedir nada em troca. Estigmatizar alguém é um desrespeito com o próximo, machuca os vulneráveis e seus cuidadores.

As mães precisam se cuidar. Costumam agir e sentir culpa pelos seus atos, mesmo que estejam corretas. Coisa secular. Precisam se cuidar… Minha filha diz que o irmão é assim por minha causa. Porque sempre o fiz colocar o pé na realidade. Acabei sendo o seu norte. Mas isso faz parte e eu nem me importo. Aprendemos a conversar na hora da janta e a esclarecermos as coisas familiares, as suas angústias e sempre nos acertamos.

Ele sempre teve aceitar a sua deficiência. Sempre lhe cobrei pelos seus atos. Aprendeu a fazer Boletim de Ocorrência, registro de corpo delito, ir à Promotoria Pública sempre que invadem os seus Direitos, a procurar a polícia para se proteger. Numa das vezes, ele tinha sido agredido e com isso, criou um processo judicial. Ele foi ouvido e assinou o seu depoimento numa audiência como qualquer pessoa. Apenas o endossei. Por que não faria isso? Ele é interditado, mas insso não significa que controlo tudo o que faz. A cidadania pode ocorrer mesmo assim. E é importante que seja reforçada sempre.

Meu filho e eu brigamos por coisas muitas vezes estúpidas… Cobro-lhe comportamentos, modos de fazer, o que escreve, a sujeira na pia, o capricho no que faz. Se escreve mal (tem letras enormes), precisa reler e corrigir, dar clareza. Ultimamente, ele refaz isso só quando tem vontade. Acho isso bom. Ele não se importa mais tanto com as minhas broncas. Nem eu com as dele.

Chateia-se muito quando procura alguém e não consegue encontrar. Nem sempre o convenço de que a pessoa está ocupada. Ele sabe que quando se quer se dá atenção, mesmo que não seja na hora em que ele busca, dar retorno é um sinal de respeito. Atualmente, ele tem amigas assim, pessoas que conheceu e eu sei quem são, que cumprem o que prometem. Para ele, isso é muito importante.

Um olhar no dia de Natal entre mãe e filho Arquivo MC

Um olhar no dia de Natal entre mãe e filho
Arquivo MC

Todo mundo gosta dele. Ele sabe abrir a porta para auxiliar um vizinho, é delicado e se oferece para carregar um pacote, conversa muito com as pessoas (às vezes demais!) e as escuta também. Aprendeu a ser mais adequado e sabe que quando recebo amigos, quero falar com eles. Respeita. E isso eu faço com seus amigos atuais, porque na infância até a idade adulta, ele não os tinha.

Nós estamos sempre aprendendo com as nossas diferenças.. Quando brigamos, ele sai dizendo palavras que não admito, bate a porta, fica emburrado. O impulso. Mas quem não os tem? Deixamos passar um tempo e nos reconciliamos. Na maioria das vezes ele me entende, sabe quando estou cansada ou preocupada. E eu, da mesma forma com ele. Nunca escondemos o que sentimos, inclusive a raiva. Somos humanos, não? Mas sempre usamos a palavra perdão.

Meu filho, apesar da deficiência cognitiva e mental, epilepsia na fase adulta e ter mais de 40 anos é uma pessoa muito amorosa. Há poucos anos foi diagnosticado por um psiquiatra de modo diferente. Ele o enquadrou dentro do espectro autista. Observou-o durante mais de mês em uma internação, diariamente conviveu com suas esquisitices comportamentais, seu modo de ser e de se relacionar.

Hoje, relaciona-se bem com as pessoas, mas não foi sempre assim. Houve momentos em que se desligava da realidade, ficava agressivo, abria a porta e desaparecia pela cidade. Entrou muitas vezes no seu mundinho em busca de proteção. Não suportava a dor da separação e o abandono do pai. Levou décadas para compreender que a vida dele era dele, que usava o pai como desculpa para tudo o que fazia, que tinha que crescer. Um dia isso acabou, não faz muito tempo.

Ele construiu sua empatia, tem essa competência, mas repete muito o que vivencia. Se ao redor dele as pessoas forem agressivas, vai copiar; se as pessoas forem relaxadas, também passará a não dar importância necessária à higiene.

O amadurecimento e o acerto fino na dose dos medicamentos lhe deram um up! Ele passou a compreender melhor o que ocorre a seu redor, aumentou sua capacidade analítica (pouco que é muito!). No entanto, a sua afetividade permanece infantil, sua dificuldade de compreender permanece. Acho que aprendemos a conviver com ele

Há poucos dias voltávamos da farmácia (ele tem enxaqueca quando não usa a placa para bruxismo) e peguei sua mão. Gostamos de andar de mãos dadas. Eu me sinto mais segura, pois tenho medo de tropeçar nessas calçadas tão ruins… E é tão bom sentir sua mão na minha.

Olhei para ele na direção do céu – ele bem mais alto do que eu – e lhe disse: estava com saudade de pegar a tua mão. E ele, prontamente, com aquele sorriso e o inusitado da palavra certa exclamou:

– Mas mãe… a nossa parceria é de amor!

No mesmo momento, parei a marcha e o abracei muito apertado ali mesmo na frente da portaria de um condomínio. E dava deixar para depois?

Quando o meu abraço o envolveu, ele se atirou para mim. É quando sinto o verdadeiro Natal.

*

MARILICE COSTI É ESPECIALISTA EM ARTETERAPIA, ESCRITORA E ARQUITETA COM MESTRADO EM ECONOMIA E HABITABILIDADE.
HÁ ANOS ACOLHE FAMILIARES, É MÃE CUIDADORA. TEM 4 FILHOS, DOIS NETOS E UM BISNETO. HOJE SEU FILHO VULNERÁVEL ESTÁ MUITO BEM, ADQUIRIU CIDADANIA E APRENDEU A ADMINISTRAR MUITOS DE SEUS CONFLITOS. PARTE DE SUA EXPERIÊNCIA FOI RELATADA NO LIVRO “COMO CONTROLAR OS LOBOS? PROTEÇÃO PARA NOSSOS FILHOS COM PROBLEMAS MENTAIS”, ENCONTRADO TAMBÉM NO SITE ABAIXO. ESCREVE O SEGUNDO LIVRO NESTE TEMA.
ALÉM DE ACOLHER FAMILIARES, ELA ORIENTA QUANTO AO AMBIENTE FAMILIAR, AO ESPAÇO DO CUIDADOR CONTRATADO, QUANTO AOS TERRITÓRIOS NECESSÁRIOS A CADA UM. SUA ARQUITETURA É DE INCLUSÃO.
O TRABALHO DE MARILICE ESTÁ NO SITE DA SANA ARTE – CUIDADOS INTEGRADOS, (WWW.SANAARTE.COM.BR). CONTATE-A SE DESEJAR SABER MAIS OU escreva NO “DISQUS” ABAIXO.