GENTILEZA: Um cuidado tão simples!

por: Marilice Costi

                                                              “Pensar nas palavras ditas para pensar as pessoas que as proferem…e aquelas a quem respeitam.”  Paulo Machado[1]

A lama que todo os dias em muitos vem sendo jogada pela televisão, redes sociais e pelas letras repetidas nos jornais, só faz aumentar a nossa descrença nos homens e num mundo melhor. Mesmo que muitos digam que estamos purgando anos de história corrupta e de forma visceral – o que pode significar um tratamento radical e eficaz – isso justifica o sofrimento que o país passa? Nada justifica. Matar a utopia de um povo é tapar o final do túnel, apagar a luz. E isto é sórdido. Causa esgotamento emocional.É em muito tempo o estado de depressão coletiva, o que vivemos,.

Por isso, torna-se cada vez mais premente que demos valor a pequenos gestos, ao simples do cotidiano.

Vivi breve experiência em um clube desportivo de Porto Alegre. Pilates é um tipo de exercício que mexe muito com o corpo e, consequentemente, movimenta nossos líquidos. Saíramos da aula de ginástica. Por isso, muitos de nós dirigiram-se ao sanitário.

Quando lá chegamos, percebi que a colega nova estava na minha frente. Certamente, a vez do alívio era dela. Ao ver-me na fila, ela me perguntou: Você está em que condições? Tem pressa? Respondi-lhe, mais ou menos. Ela disse, eu estou na mesma. Vá primeiro. E eu argui: Você chegou antes, eu aguardo. Mas ela insistiu: Que idade você tem? – e eu, sem me dar conta, lasquei a minha. Ela, a recém conhecida, categoricamente, ordenou: Você vai primeiro. Tem mais idade que eu! – E ainda observou que o papel higiênico estava no fim, foi buscá-lo e me alcançou.

Sem argumento mediante o seu critério, sucumbi à sua ordem e passei na sua frente. Sorri feliz não só pelo alívio premente, mas por dar-me conta que eu estava sendo respeitada pela idade que eu tinha, apenas quatro anos a mais que ela. Ainda com menos de 60 anos, ainda não gozava dos direitos dos idosos.

A complexidade do século XXI, em tempos líquidos tão falados por tantos, perpetua a fragmentação e degradação do século XX. A falta de empatia, o desequilíbrio nas relações muito mais frágeis e virtuais, tanto desrespeito em tantos lugares… No entanto, o momento que vivi serviu apenas como estopim para sentir-me valorizada.

A caminho de casa, depois de um dia turbulento com tantos problemas a resolver, como tem sido o cotidiano de muitas famílias brasileiras, pensei: por que uma coisa tão singela me deu tanto bem-estar? Nossa sociedade anda tão carente de vida… de valores, critérios. Qual respeito vivenciei naquele final de tarde? O respeito aos mais velhos. Um simples critério de escolha que não só parece ser simples como é simples! Da mesma forma como são poucos e básicos os Dez Mandamentos, vale lembrar que ouvi dizer que se fossem escritos hoje, teriam um mandamento a mais: Não consumiras sem critérios. Tudo que não se faz. Mas como suportar a avalanche de estímulos ao consumo jogados nas nossas retinas e mobilizando nosso comportamento?

A nossa capacidade de discernimento precisa ser resgatada. Respeitar aos outros – como foi o caso da minha colega pouco conhecida –  e nos darmos respeito – como é o caso de não sucumbirmos à mídia – não são tão complicados. E pode ser apenas iniciando no olhar o próximo como a nós mesmos.

A pessoa que cedeu sua vez talvez nunca saiba o quanto me fez bem, apenas por fazer com que me sentisse uma pessoa, e apenas por ter anos a mais. Respeitosa, ao redor dela devem existir outras tantas que também devem respeitar as pessoas da mesma forma.

Aquilo permaneceu em minha mente, pois foi o que pensei todo trajeto de volta para casa. Ainda existem critérios de valor na sociedade. Sorri sozinha, ainda há salvação.

0 Desnho lápis Gui

Desenho de bebê, usa chupeta, dorme enrolado em coberta. Feito à lápis, poucos traços.  Autoria Marilice Costi

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O clichê gentileza gera gentileza, vale sempre. Sempre poderemos fazer alguma coisa para possibilitar que o outro se sinta melhor.  Mesmo que isto seja simplesmente ceder lugar num banco de ônibus, na fila de um sanitário, ou dar um sorriso.  É tão simples.

Começar por nós mesmos, pode ser o pontapé inicial, o start de uma mudança de hábito, do resgate de valores em mim e no coletivo.

Nesta primavera, experimente alimentar-se com a beleza do singelo. Faça a diferença.

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[1] Os idosos na cidade e a cidade envelhecida. http://infohabitar.blogspot.com/ acesso em <05.dez. 2005>.

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Marilice Costi é especialista em Arteterapia, escritora, poetisa, criadora e editora-chefe da revista O Cuidador (2008-2015), hoje on-line. É arquite­ta e urbanista, mestre em Arquitetura. Recebeu diversos prêmios em literatura, tem livros publicadosGatilho na Palavras, Como controlar os lobos?, A fábula do cuidador entre outros. Recebeu Prêmio Açorianos 2006 com Ressurgimento. Criou a primeira oficina de poesia em 1995. É membro  da Academia Literária Feminina do RS e da AATERGS (Associação de Arteterapia do RS). Dá palestras. É mãe cuidadora. 

coraçõesA plataforma www.CUIDAQUI.com é o novo projeto para cuidar pessoas com deficiências e quem cuida. www.sanaarte.com.br 

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