Dica de Filme Sobre Maternagem: Temple Gardin

por: Marilice Costi

Quando eu era mãe-menina, ganhei dois bebês. Eu não tinha ideia da história que construiriam comigo. Prematuros, tão pequeninos, não cumpriam a minha expectativa maternal. Fui proibida de entrar no berçário para não contaminá-los, normas do Hospital, que me entristeceram muito. Os meninos ficaram na incubadora e meu tempo de espera terminou após um mês, quando um deles veio para o meu colo.

Poucos dias depois, o outro. E passei a não dormir o quanto precisava. Depois de uns dias, soube que havia entrado um stafilococcus no berçário (sic) e logo busquei meu outro bebê. A partir de então, não dormia mais porque me revezava entre eles, enrolada nas atividades com baldes de fraldas de tecido, pilhas para passar e dezoito mamadeiras preparadas pela manhã. Eram nove cada um por dia, eles tomavam de três em três horas. Nada disso me abatia e a vida foi seguindo com a ajuda de muitas pessoas.

Passaram-se três anos e tive uma filha. Foi quando percebi que eu era uma mãe responsável, mas não com vínculo maternal com meus gêmeos como poderia. Levei anos de terapia para construir o que foi rompido no meu isolamento do berçário.

No entanto, cuidava de todos com afinco, parecia que tudo corria normal na minha maternagem.

Minha mãe observava um dos gêmeos e dizia: este menino me preocupa. Eu negava. Muitas vezes. E discutia com ela, achando que era porque ela dirigia uma APAE. Eu achava que era normal a diferença entre os dois. Afinal, não tinham que ser iguais e eu brigava pelo respeito à singularidade de cada um.

Ao assistir o filme TEMPLE GARDIN, minha memória misturou-se à persistência daquela mãe. Era a minha imagem ali a resistir a diagnósticos? A não aceitar limites impostos pela medicina? A por em prática o meu instinto maternal e o meu amor? A mãe de Temple, na década de 50 nos EUA, foi taxada de culpada por ter uma filha diferente. Também ouvi isso no Brasil na década de 70.  E ainda: que eu não deveria exigir muito desse filho porque ele pioraria. Renomado psiquiatra de Porto Alegre afirmou que se meu filho mudasse o tratamento teria um surto psicótico.

Diferentemente dos animais que abandonam seus filhos deficientes, os seres humanos acreditam em seus filhos. A frase socialmente dita pelos ignorantes Se pariu, que crie! dá o comprometimento, mas não expressa a extensão do que o cuidado materno é capaz.

Meu gêmeo vinha apresentando desenvolvimento e eu poderia enumerar as muitas vezes em que fez coisas que mostravam ter mais capacidade do que aquela que os profissionais viam.

Acreditei mais no meu filho. No que ele ainda poderia. E conseguimos muito: ele, suportando minhas exigências e eu, no meu aprendizado para lhe dar limites (o que me causou muita dor), o que desenvolvi com profissionais e amigos que me acolhiam.

O filme trouxe à tona todos os meus sentimentos, com uma diferença, a doença mental não é limitadora da mesma forma que o autismo. As pessoas não têm medo dos autistas como têm de uma pessoa com transtorno mental. A sociedade fala que os doentes mentais matam. Mas eles apenas se defendem dentro de seu estado delirante. Eles sentem medo, como se nós lhes oferecêssemos perigo, pois quando estão medicados e bem cuidados, são ótimas pessoas.

A mãe de Temple é um dos muitos exemplos de mães guerreiras. Luta contra os paradigmas da Medicina, contra a postura de profissionais que desacreditavam no estímulo que deve ser dado àqueles que, mesmo que não consigam interagir, como dizem dos autistas e aspergers, possuem potenciais a serem descobertos. Se, para os ditos normais, encontrar uma profissão e acertar o próprio caminho é complicado, por que para esses não seria?  O processo de descoberta é sempre delicado, complexo para todos.

Muitas mulheres lutaram para obter o direito a tomar decisões. Quando tomamos iniciativas no cuidado com nossos filhos, sempre temos dúvidas. Mas é preciso decidir e continuar apostando.

Temple Gardin é uma história real. O filme, que me fez chorar do inicio ao fim (ando de coração mole), demonstra a força de apenas uma mãe que, sabendo do diagnóstico, decidiu mudar a história. Ela conseguiu.

A filha é uma vencedora! Aprendeu a se defender e a lutar pelos seus direitos, a dimensionar e a ultrapassar seus próprios limites.

Somos todas um pedaço daquela mãe, fundamentais no desenvolvimento dos filhos. Também necessitamos acolhimento, orientação e informação.

Aceitar a deficiência em nossas crias é apenas o início, no entanto, é fundamental. Seguiremos então por um caminho de fé acreditando para mudar a própria história.

Será a partir do primeiro degrau entre a nossa casa e a rua, unindo-nos às outras mães, aos pais, aos cuidadores familiares que faremos maiores trajetórias. 

Marilice Costi é escritora e mãe cuidadora, Especialista em Arteterapia. Ministra oficinas, workshops, cursos. Dá palestras. Publicou diversos livros. Confira aqui as suas publicações

É CEO do Cuidaqui.com - A Plataforma de Produtos e Serviços para o Cuidado de Pessoas Especiais e de seus Familiares. Uma startup gáucha de impacto social (SEBRAE).