Saiba mais sobre a exaustão do cuidador familiar

por: Marilice Costi

Há famílias que cuidam de seus idosos distribuindo democraticamente as tarefas. Outras não dividem nada e jogam toda a responsabilidade sobre um e passam a fazer visitas ao idoso raramente. Além de fazerem o idoso sofrer pelo sentimento de abandono, causam sofrimento ao idoso e ao cuidador familiar. Este pode adoecer devido ao excesso de trabalho. Além dos esforços físicos resultantes do seu cuidado, a solidão e o medo do próprio futuro, o peso da responsabilidade que se avoluma e o compromisso mais com a vida do outro que com a sua se juntam a outros sentimentos inerentes a quem ama e sente uma perda eminente. Saber que o tempo não volta gera desânimo e tristeza. Se sentir desejo de se livrar do cuidado, poderá sentir culpa e não alívio, quando o idoso falecer. Há sentimentos ambíguos que vão se instalando e fazendo mal a quem cuida. A perda do tempo para se cuidar vai construindo o seu esgotamento que, quando se instala abrem portas para a depressão.

Não é só um cuidador contratado que deve descansar (tem direitos trabalhistas assegurados, tais como as horas de descanso e férias), o cuidador familiar também.

Conheci um idoso que pediu ao irmão que o visitava que lhe conseguisse um asilo, pois não queria mais atrapalhar a família. “Não podem mais me cuidar, estão cansados” – dissera-lhe. Vulnerável, ele se sentia perdido.

Esse é um dos casos que ilustra o comportamento de um cuidador familiar em estresse, necessitando urgentemente de férias ou de ter com quem dividir o cuidado com o idoso. Sem férias nem remuneração para seu trabalho é o responsável 24 horas por dia pelo idoso, que percebe tudo. Importante saber que um idoso lúcido e com capacidade crítica preservada, ao ser dependente, perde o direito de decidir sobre sua vida e essa dependência é sua maior fragilidade e causa de sofrimento. Ele se sente preso a quem não o quer nem consegue mais cuidá-lo adequadamente.

Não compartilhar o cuidado diário é sofrimento também ao idoso. Ele se sente culpado ao “exigir demais” do familiar, quando deveria estar tranquilo.

Isso tudo é justo? Certamente que não. A vida nem sempre é justa.

Outro cuidador familiar me perguntou o que deveria fazer. O cuidador já estava na casa há muitos anos cuidando de seu pai. Na madrugada anterior, ouvira seus gritos com seu pai, que não saísse da cama, senão ele o deixaria sozinho. O familiar pedia orientação para agir. O que faria se não tinha outro cuidador confiável para substituí-lo? Se sabia o quanto se seu familiar e o cuidador se queriam bem há tanto tempo…

Marcamos para conversar sobre o problema. É óbvio que o ocorrido – os gritos na fala do cuidador – estava previsto com penalidades no Estatuto do Idoso, e que se não desse importância, ele, o cuidador familiar, poderia se tornar cúmplice de um crime como o idoso. Há quanto tempo aquele cuidador não tirava férias? Fazia outros plantões? Andava cansado? Doente? Era rimo de família?

A lei determina que o contratante dê folga ao cuidador após o limite máximo de horas de atendimento, mas o que se sabe é que eles emendam um plantão no outro trabalhando em mais de uma casa. Cuidadores contratados também se esgotam. Seria o caso de pedir uma avaliação médica? E lhe dar férias?

fb_17 um cuidador bem cuidado cuida melhor

Os casos acima são considerados abuso contra o idoso, previstos no Estatuto do Idoso (2), que pode ser sempre acionado. Mas antes, sempre é bom conversar – olho no olho – tanto com o cuidador contratado, quanto com o idoso, e acionar os demais membros da família.

Nem sempre é possível trocar de cuidadores, pois poderão haver novos problemas a enfrentar (aguarde outra matéria), mas o diálogo é uma boa saída. Fazer com que o cuidador perceba seu próprio cansaço e se colocar disponível para lhe ouvir e orientar. Essa conversa é importante, pois demonstrará que o limite foi dado, que não poderá se repetir, mas que o problema é de todos.

Quanto ao esgotamento do cuidador familiar, é urgente uma reunião com os familiares, quando o familiar deverá falar de seu esgotamento (peça um atestado de seu médico para reforçar), de seus sentimentos e do quanto precisa dividir para poder descansar. É importante sensibilizá-los e, em último caso, um advogado ou o médico da família poderá orientar e dizer do Estatuto do Idoso e de responsabilidades familiares. Caso não consigam dialogar, procure um amigo, um padre ou outro familiar respeitado pelo grupo e peça ajuda. O importante é que essa pessoa se disponha a auxiliá-lo em um conflito no âmbito familiar, onde existem muitos sentimentos em jogo, uma trama de vidas interligadas umas às outras, uma constelação familiar.

É preciso estar atento para tomar as decisões adequadas e assim não prejudicar nem ao idoso, nem ao cuidador. O cuidador familiar é parte de um processo em seu todo, tanto quando cuida sozinho sem alguém no cotidiano do idoso, quanto quando cuida com apoio de um cuidador contratado. Em ambos os casos, ele não deve se sobrecarregar. Há que se entender que a sua casa não é mais a mesma, a geladeira não tem mais o seu controle, não possui mais privacidade, é responsável por medicamentos, roupas, alimentos especiais em horas padronizadas, banho, lazer, tudo! (3)

Pesquisas atuais sobre o cuidador familiar afirmam que é a espiritualidade do cuidador que lhe auxilia a entender de si e dos demais, a aceitar o passamento, a encarnação, a morte e a aceitar os sentimentos e a perdoar a si e aos outros. (1)

Quando me percebi iniciando minha vida de cuidadora de adulto, passei a observar o quanto cuidadores familiares são invisíveis. O cuidador só é valorizado quando o que ele passa é percebido por outros da família ou quando o idoso vier a falecer. Às vezes, nunca. Os familiares falam que ele é queixoso, está sempre reclamando. No entanto, o que se observa é que só compreenderão quando o cuidador familiar parar de cuidar devido à exaustão e então passarem a ser cuidadores também.

É preciso acolher esse cuidador também, ele é visível, de carne e osso, de sentimentos. É importante preservar a sua saúde, respeitar seu descanso, dar-lhe espaço de fala para que expresse seus sentimentos e suas dores sem críticas.

O cuidador familiar tem o direito de descansar, de lazer e de ser cuidado. Só se sentirá bem se não abdicar de seus sonhos. Sendo necessário, o cuidador familiar não deve abrir mão dos cuidados de um profissional habilitado. Espera-se que logo o encontre na plataforma de busca – Cuidaqui.com – lugar para divulgar profissionais e que também cuidam de cuidadores.

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Referências 
(1) Espiritualidade relacionada à qualidade de vida, funcionamento familiar e saúde mental em pessoas com doenças crônicas ameaçadoras à continuidade da vida e seus familiares: estudo exploratório, apresentada por Maria Augusta à EERP em setembro de 2016, com orientação da professora Patrícia Leila dos Santos.

(2) Estatuto do Idoso ou copie em seu navegador: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.741.htm

(3) Arquitetura OC, Tempo de Vida e Lugar. Porto Alegre: Sana Arte, ed. 5, 2009. Revista O Cuidador. Encontre neste link: http://www.sanaarte.com.br/publicacoes-revistas-internas?id=5

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Escritora, arquiteta e urbanista, MARILICE COSTI é Especialista em Arteterapia (AATERGS 072/0808), Mestre em Arquitetura (Economia e Habitabilidade), consultora, cuidadora familiar e cuida cuidadores. 

Editou a revista O Cuidador em suas 40 edições. Coordena o Movimento Pró-Vida Assistida que luta pelas moradias para pessoas com deficiência psicossocial, junto com familiares e amigos. 

São suas publicações: A fábula do cuidador (2016),Como controlar os lobos? Proteção para nossos filhos com problemas mentais,  Gatilho nas Palavras, Ressurgimento. Veja também seus artigos.

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