Saiba mais sobre a escrita no autocuidado

por: Marilice Costi

A escrita é uma forma de comunicação das mais importantes. Competência que deve ser adquirida na infância. Ponte de ligação na interação entre as pessoas, é uma questão de sobrevivência e interfere na qualidade de vida humana. Ela é. 

Qualquer texto é uma unidade muito mais complexa do que aparenta. Os atos de compreender, analisar, aprofundar criticamente a linguagem, interpretar fogem da capacidade humana de entendimento, pois são múltiplas e complexas as conexões que ocorrem durante o processo da escrita.

Um texto precisa funcionar como uma flecha que, ao ser lançada, já cria no movimento de deslocamento novas possibilidades e propriedades para as pessoas. Isto se observa no movimento atual das redes sociais de modo muito intenso. No entanto, é nas oficinas de criatividade que o nosso movimento mental poderá se desenvolver de modo mais efetivo.

Há muitos exercícios que estimulam a criatividade e podem ser importantes tanto na construção de novas redes neuronais quanto satisfazerem em autoconhecimento e desenvolvimento expressivo pelo resultado obtido. Expressar-nos sem medo gera alegria mesmo que ali, na folha de papel, os sentimentos expressos possam ser de tristeza. 

Um dos exercícios que surpreendem e exigem um pensamento “ao contrário” dos participantes é a técnica que se chama de caviardage. A técnica utilizada em oficinas de escrita consiste num processo de criação que propicia a desconstrução de um texto desconhecido e a reconstrução de um texto singular. A desconstrução consiste em riscar, remover e tirar do campo de visão todas as palavras que não possuem importância ao leitor. O processo é mobilizador do (in)consciente. Assim que se remove o excesso para encontrar o sumo, descobre-se novos significados ao texto. Este processo demanda um pensamento “ao contrário”, porque envolve o inverso de colocar palavras, causando estranhamento e dificuldade para a maioria das pessoas na execução da tarefa.

O ato de ler um texto desconhecido tem relação com ver, absorver, compreender, apreender, articular ideias pré-existentes e novas. Para remover é preciso articular o raciocínio e estabelecer até que ponto as possibilidades da palavra não serão realmente necessárias no texto devir. Remover excessos é retirar o que não serve, o desnecessário. Assim, as palavras que “sobram” são inconscientemente escolhidas e necessitam de construção.

Exercitar a limpeza textual, o ato de remoção, o refazer, a compreensão do próprio processo de escrito, o reconhecer-se no texto criado desenvolvem potencialidades adormecidas e ampliam o autoconhecimento.

Os participantes, no ato de ler, farão esforços para remover e escrever. O processo arteterapêutico consistirá na possibilidade de ordenar o pensamento e no reconhecer-se na própria escrita e, então, sobre o resultado, no reordenamento do pensamento. Em uma oficina de escrita arteterapêutica jamais se exige do aluno a técnica e a estética (isto se aprende em oficinas com foco em qualidade textual), no entanto, os participantes certamente buscarão clareza e estética em seu texto, exigindo de si o seu máximo. E isto é preciso valorizar, porque ali está o interior de uma pessoa e não um texto qualquer. A isso, é fundamental tratar com extrema delicadeza.

A linguagem é facilitadora da comunicação; a escrita é visual, é concreta, pode provocar catarse e dali poderão advir outros insights.

Quem escreve reconhecerá muito de si em sua escritura, o que sempre propiciará maior autoconhecimento. Daí que uma arteterapeuta deverá estar muito atenta durante todo o processo de tessitura da escrita.

A mensagem depositada na folha aguarda sempre o reconhecimento ou um momento para ser partilhada. Também é através da escrita, no ato de escrever, que se estabelece a questão da comunicação consigo mesmo, assim como a comunicação com o outro, no momento de ler.

Estar frente a uma folha em branco abre possibilidades de se penetrar em um espaço que poderá ser assustador, mas tal movimento de entrega sempre enriquecerá o interior do próprio autor.

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA

CHOMSKY, Noam. Linguagem e mente. Brasília: UNB, 1998.

COSTI, Marilice. Oficinas de Poesia: a palavra como recurso arteterapêutico. Monografia do Curso de Especialização em Arteterapia. ISEPE, Faculdade Marechal Cândido Rondon, 2004.

COSTI, Marilice. Sala de aula, arquitetura, corpo e aprendizagem. Textual, Porto Alegre, p. 14-21, nov. 2005.

DUCHESNE, A.; LEGUAY, T. La petite fabrique de littérature. Paris: Magnard, 1990.

MAY, Rollo. A coragem de criar. São Paulo: Nova Fronteira, 1982, 2 e.

Marilice Costi é poeta premiada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2006. Faz oficinas de escrita e arteterapia, é escritora de 8 publicações e prepara a próxima sobre Oficinas de Poesia: a palavra e o autoconhecimento, sendo editado por Sana Arte neste ano de 2018.