Quais tintas e luminárias devo escolher para ter conforto?

por: Marilice Costi

As cores têm características psicodinâmicas e a iluminação pode reforçar esse caráter. Não existem normas e regras fechadas, mas a experiência visual e a teoria demonstram que ambientes com cores saturadas parecerão menores do que são. Tendo como exemplo as paredes e portas das casas dos filmes de Saura em cor carmim, amarelo intenso, azul ou verde brilhante – Cor saturada não é muito preferida pelos usuários num hospital, quando a cor esconder a sujeira, pois cores claras são associadas à higiene, o que é fundamental em hospitais. Está comprovado que a contaminação não ocorre através da arquitetura, mas através das mãos do staff.

As associações em relação às cores ocorrem conforme a vivência de cada um. Certos tons serão sempre associados a bebês, céu, natureza, água de piscina, barro e fezes, neve, luz, morte.

Há amarelos que podem ser desconfortáveis visualmente em grandes áreas e isso depende da frequência de onda que o olho percebe, as pessoas enjoam ou ficam cansadas.

Cores muito vibrantes devem ser usadas com parcimônia. Os tons pastel claros podem ser considerados clássicos na decoração especialmente se os ambientes forem pequenos.

Atualmente, a gama de cores que a indústria produz abre muitas possibilidades de composição cromática.

Para escolher uma cor é importante ter conhecimento das necessidades de conforto térmico também. Uma lâmpada quente faz com que as cores quentes existentes sejam visualmente melhor percebidas. Uma lâmpada fria ressalta os tons frios e interferirá em nossa sensação térmica de outro modo.

Além disso, uma lâmpada tem muitos detalhes a mais: a quantidade de iluminância, o consumo energético, o desenho que a luz fará no ambiente, calor gerado no ambiente entre outros itens.

A cor também interfere na percepção térmica das pessoas, pode dar direção, orientabilidade e acessibilidade. Pode também ser escolhida por necessidade emocional.

Constantes estímulos e variações de cor podem modificar o comportamento das pessoas. Este foi um dos objetivos do projeto do Pavilhão para pessoas idosas do Hospital Emile Roux. Além de valorizar a arquitetura de um edifício antigo, os corredores foram restaurados para estimular os pacientes a circularem pelos corredores e a se visitarem.

Corredores do Pavilhão para pessoas idosas do Hospital Emile Roux – França

Quando as pessoas compram uma lâmpada, elas olham o preço e o vendedor quer vender no balcão da loja, não tem todo o conhecimento que um especialista na área tem, até a idade das pessoas interfere na necessidade de iluminação. E isso é orgânico.

Para ilustrar a escolha e o papel de um consultor, relato o de um cliente meu. Ele me chamou após pintar todo o apartamento com três quartos e também quarto de empregada. Ele pintou tudo de branco e ficou muito assustado. Não entendia o que ocorrera. Estava bem pintado.

Não há nada mais monótono do que um ambiente todo branco, com móveis brancos, cortinas brancas. No entanto, isso pode ficar lindo, se o profissional souber lidar com os materiais, as texturas e detalhes com luz e sombra gerados pelas luminárias escolhidas cuidadosamente. Pode resultar em uma obra de arte.

É importante ter critérios na escolha de cores e luzes. E isso tem a ver também com a funcionalidade e o layout do ambiente, as janelas, o pé-direito, o piso, o tamanho do ambiente, as esquadrias…

O cliente havia sido seminarista e vivera grande parte de sua vida em ambientes brancos, quando a tinta mais barata era a branca e porque o branco também tem seus significados religiosos. Ele trouxera de sua memória o que lhe dera segurança? A sua vida anterior? Mas não queria mais aquilo, estava noivo.

Então estudei o seu funcionamento em relação às atividades de cada ambiente, as cores que gostava e o ensinei a escolher tons adequados. Marquei quais as paredes poderiam lhe dar a sensação de aproximação ou de distanciamento, e assim por diante.

O apartamento passou a ter vida, movimento, ao mesmo tempo espiritualidade, que isso ainda era seu forte, distribui as luminárias e dei-lhe orientação sobre quais seriam as mais adequadas. E tudo o que ele queria naquele momento era um local que marcasse o seu novo tempo de viver. É quando o especialista faz a diferença.

 

Marilice Costi _________________________________________________

é arquiteta e urbanista, mestre em Arquitetura (Economia e Habitabilidade – UFRGS), consultora, arteterapeuta, escritora, professora, mãe cuidadora. Na SANA ARTE, atua na arquitetura de inclusão para melhorar a vida das pessoas cuidadoras e vulneráveis em suas casas.

Dá palestras e workshops, oficinas e workshops a públicos diversos. (Veja suas Oficinas aqui.) Editou mais de 6 anos as 40 edições da revista O Cuidador e criou as imagens de suas capas.

Autora de diversas publicações: A influência da luz e da cor em corredores e salas de espera,   Como controlar os lobos? Proteção para nossos filhos com problemas mentais, A fábula do cuidador, TemposFrágeis, Ressurgimento-Prêmio Açorianos 2006 e outros.

Dialogue com a autora MARILICE COSTI nos comentários abaixo.