DO SER MÃE 2: Palavras de corpos sagrados

por: Marilice Costi

Não solta meu abraço, meu coração pedia. Não solta esta emoção cheia de soluços presos no tempo.

Mas as pessoas ao redor inibiam o tempo dele poder se alongar. Seus soluços de amor encolheram-se no espaço dos guardados de anos, prenhes de dores empilhadas, de medos interligando amores, de imagens de onde errei e do primeiro colo, do balanço nas horas do sono e da doença, no olhar sobre o berço, na busca por um brinquedo perdido.

Não solta este abraço, que ele precisa se alongar para o amor e a saudade e guarda entre os soluços, os gritos.

No entanto, o instante impede os sussurros e as lágrimas, do dizer do tanto amor, porque olhares ao redor se cruzam em nossa direção, interrogadores, curiosos e o tempo inexorável comanda o fim que eu não tenho ideia quando seria se sozinhos estivéssemos. O ponto de fim daquele calor no encontro dos nossos corpos, daquele contato que estava tão carente de entrega...

Foi um pedido da mãe feito aos anjos e assim foi: cumpriu-se.

A imagem sem registro fora um abraço de braços a se envolverem na força e no enlace exatos daquele tanto e saudoso amor. A emoção não soube de onde desbrotar, porque a semente estava ali há muitos meses a se desenvolver dia sim outro também, a buscar deslocando-se do caminho do desencontro.

Ela pediu que aquele instante não fosse nunca um único para sempre, que o abraço, pelo menos o abraço, fosse selo de paz, com a entrega de mútuo baú de afetos e certezas que só eles saberiam como e o quanto dimensionar. Assim foi o seguro amor de uma mãe na hora do colo maduro, quando o colo era por ela mais que recebido, muito mais do que recebido e para sempre esperado.

Aquele abraço - contido e permanente no peito da mãe, envolvido em tantas mágoas sem saúde, encolhidos e guardados num rolo de saudades das que se desenrolam e enrolam dois seres perdidos num tempo sem tempo de viver tanto amor, agora real em um tempo infinito e tão curto - era para tecer nova fortaleza, novo farol, nova estrada a ser descortinada para a luz.

O novo sentimento estampado na pele das faces rosadas, o sorriso leve de quem se larga ao amor mais pleno, marcavam o olhar de quem então acreditaria em futuros de ser. Seus lábios não precisariam mais de palavras, porque tudo passara a ter nova alma, estampada no corpo todo, leve e livre para agora viver.

 

Aquele abraço de chegada foi também o de partida, pois os anjos decidiram descolar aquele amor agora impresso nos dois e que, no momento do reencontro, tornava desnecessário o adeus. Aquele amor nunca mais se descolaria tão amarrado que agora ficara no que antes fora algo de incerto, de ambíguo em vida e fim.

A mãe voltou para casa com a bolsa dos afetos cheia daquelas emoções desencontradas e sem paradeiro, que lhe davam vontade de chorar e sorrir o dia inteiro, num tempo do mundo sem mais clareza de documentos ou motivos do antes. Tinha o desejo (ou necessidade?) de largar todo um mar pelos olhos entremeados  de paradas – os soluços – paradas para não perder o que sentira de tanta felicidade e que tinha certeza nunca mais traria o vendaval de antes, que varrera os momentos de possível futuro. Aquela água que lavara seus cabelos há tanto tempo e que escorrera pelo seu rosto constrito no dia de temporal, na tentativa de carregar o desânimo que no final teria que se tornar força de guerrilheira, uma lavagem para remover o desespero escorrerido pela roupa, penetrara nos sapatos... Foi quando pensou não ter mais nenhuma tentativa a fazer ou amigos a procurar para entender de tantas dores num tempo que para ela poderia ser sem futuro algum. Encontraria luz?

Naquele momento, enquanto caminhava pela casa à procura daqueles soluços contidos no abraço, que nesse instante do agora não deveriam mais ser seus, a mãe também procura o pranto das mulheres que esperam, os braços abertos do pai que aguarda o filho pródigo. Ou de quem marcou a ferro e fogo na alma, a desesperança do amanhã? Não, haveria fé no futuro. Mas... já não era mais esse filho que se encontrava escondido nas lembranças da casa, nas fotos de aniversários e natais, nas conversas sem fim, nas imagens do jovem homem que tanto se desencontrara.

A mãe percebeu a graça recebida ao ter seu pedido aos anjos se realizado. A certeza de que tivera aquele merecimento estava na toda a proteção que percebera hoje no entorno do filho, com quem construíra tanto amor, escondido e preso na espera em tantos anos de medo naquele que se perdera e que – naquele instante – lhe mostrava que se achara. E o tempo passou a se organizar na certeza daquele amor registrado nas memórias de décadas, que sempre aguardara.

E o tanto de secular na espera das mulheres provou que o tempo sempre caminha para o encontro do abraço. O abraço reativador de tão boa nova.

A partir daquele dia, a mãe poderia parar de procurar.

Marilice Costi  escritora e mãe cuidadora, Especialista em Arteterapia. Ministra oficinas, workshops, cursos. faz palestras. Publicou diversos livros. Confira aqui as suas publicações.  É CEO do Cuidaqui.com - para Produtos e Serviços para o Cuidado de Pessoas Especiais e de seus Familiares. Uma startup gáucha de impacto  social. Dirige Sana Arte.

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