O PAPEL do HOMEM no CUIDADO – de Renata Tschiedel*

por: Marilice Costi

O antropólogo Roberto da Matta diz que nossa identidade é formada pelos papéis que representamos ao longo da vida e que os rituais servem para marcar as mudanças desses papéis. Ele não está falando da personalidade em si, mas de como a projetamos. Papéis e rituais são alternativas culturais, adotadas ou não, que variam de acordo com a época, as regiões, povos e indivíduos.

Na civilização ocidental, até o século XVIII o homem era o centro, o patriarca, o poderoso chefão de seu feudo, a quem todos deviam obediência; a mulher era mera reprodutora, as crianças eram tratadas como adultos e os velhos como guardiões da memória. A partir da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, com a instituição da burguesia, o homem deixou de se limitar a seus domínios, passando a exercer o poder público; a mulher assumiu o poder privado, encarregando-se da saúde e da formação dos filhos. Os poderes eram equivalentes, mas as funções, diferentes: ele provedor, ela cuidadora, ele razão, ela coração. A criança começou a ser vista como futuro cidadão e a ter importância central como grande investimento para criar uma população qualificada. Os velhos foram marginalizados.

Após a II Guerra Mundial, com o desenvolvimento dos meios de comunicação e da propaganda, embora as funções do casal permanecessem as mesmas, criou-se o ideal da família de margarina: feliz em torno do café da manhã, todos limpos, lindos e bem comportados. Ou então a esposa, após um dia de penosas atribuições diárias (faxinar, lavar, cozinhar, acompanhar o estudo dos filhos, atender familiares doentes, etc.), recebendo, impecavelmente arrumada, o marido, trabalhador bem sucedido, no fim da tarde. O homem representava o herói de muita ação e autoridade para o qual demonstrar afeto significava fragilidade. Na vida real, no entanto, nem tudo era perfeito. E, em qualquer desvio na conduta padrão, se atribuía a culpa à mulher.

A partir de 1960, com os movimentos hippie e feminismo, a fronteira entre encargos masculinos e femininos começou a ser rompida. A mulher aliou sua função exclusiva de pessoa do lar à disputa no espaço público, com emprego remunerado. No entanto, ao se dar conta de que ser Mulher Maravilha em dupla jornada era charmoso apenas na ficção, convocou o parceiro a brincar de casinha com ela. O homem, antes o detentor das atividades tidas como principais, ficou perdido, tentando se preparar para assumir a divisão das secundárias tarefas familiares. Afinal, até então ele exercera o papel de cuidador quando muito na esfera profissional. Mesmo se arriscasse a dar palpites na educação da prole, em geral cabia à mãe a palavra final.

Na sociedade atual, os antigos referenciais foram por terra. Qual o papel do homem moderno neste contexto? Qual seu papel no cuidado familiar? O herói de hoje não é o Super Homem que voa alto e só age quando ouve o pedido de socorro. Está mais para seu alter ego Clark Kent: comum, meio atrapalhado em sua vida terrena. Precisa resgatar seu lado feminino, adicionar o coração a seu perfil racional, olhar além da esfera material, executiva e prática, distribuir atenção, respeito, compreensão e carinho a todos que o cercam, independente dos laços sanguíneos. Perceber que sua virilidade não está numa postura de machão exigente, que se irrita quando contrariado. E que sua sensibilidade pode se expressar de maneira criativa.

Pai com filha no colo olham para o horizonte. Imagem de Marilice Costi , na revista O Cuidador ed 31 p.13

O homem atual, com todas as informações à palma da mão e com tantas terapias à disposição, não tem mais a desculpa de não posso dar o que não recebi; isso só denota falta de vontade e uma inércia dentro do modelo ultrapassado. Ele deve encarar seus problemas, visitar sua interioridade, questionar como melhorar seus relacionamentos e se posicionar de maneira positiva frente às mudanças a fazer. Optar por contatos presenciais, mais prazerosos e intensos que os por maquininhas. Tem de crescer, ser múltiplo, versátil. Na vida a dois, fica mais fácil o casal acertar a nova rotina, estabelecendo quem faz o que, o que evitar para não desagradar o outro, o que tolerar, como estabelecer o meio-termo nas divergências, incentivar a independência do parceiro e valorizar suas atitudes, sair do próprio umbigo.

Os problemas surgem a partir do parto. Agora ele, de repente, terá de abraçar a responsabilidade partilhada. Acordar à noite quando o bebê chorar, ninar, trocar fralda, dar mamadeira e banho, enfim, todos os cuidados devem ser divididos, pois é importante para a autoestima e o equilíbrio da criança que sinta sempre a dedicação de ambos os pais. Acabada a licença maternidade, como ajustar a nova família? Os velhos ganharam status e se sentem no direito de não assumirem a guarda dos netos. Babás de confiança são raras. A maternagem se terceiriza ou se institucionaliza através de creches e escolas. Muitas famílias se desestruturam, os casamentos deixaram de ser instituições sólidas, os filhos se repartem entre dois ou mais núcleos. Criam-se famílias monoparentais.

Não importa a circunstância, o papel de pai, como o de mãe, deve ser prioritário e exercido pela vida inteira, pois a criança continua a ser o futuro cidadão, apesar de haver a tendência atualmente de se comportarem como gente grande. Pais devem se manter presentes, disponíveis. Observar as reações de seu pimpolho, seja criança, adolescente ou adulto, compreendê-las e responder a elas. Construir confiança, passar valores e princípios, servir de exemplo, acolher e orientar. Amor incondicional não significa ser permissivo, é preciso dar limites, de maneira firme embora não violenta.  Pais não são amigos, muito menos ditadores. Estabelecer relação através de conversas sinceras e não de bens materiais. Se pais transmitem amor, ao envelhecerem terão suporte do filho como reconhecimento, não como uma obrigação penosa.

Em todas as épocas houve exceções dentro do padrão comportamental vigente. No entanto, o princípio básico é que o ser humano, durante sua vida, tem vários papéis a representar, alguns transitórios, outros definitivos, e os escolhidos precisam ser exercidos de uma forma consciente e responsável. É uma decisão pesada?  Já dizia o escritor português Fernando Pessoa: tudo vale a pena se a alma não é pequena. Segundo nosso poetinha Vinicius de Moraes: a vida só se dá a quem se deu. Há vários relatos de homens que ampliaram sua alma, abrindo-a ao cuidado familiar, confirmando sua felicidade na nova situação. Os tempos mudaram, as exigências são outras. Todos temos de nos adaptar aos avanços psicossociais, pois essa é a evolução da humanidade.

 

Renata Tschiedel foi jornalista apoiadora da revista O Cuidador de 2008 a 2014. A matéria acima foi publicada na Ed. 31, p. 12 e 13, edição que homenageou o homem.  Saiba mais aqui. 

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Glossário:

alter ego: o outro eu, outra personalidade da pessoa.

monoparental: apenas um responsável pela criança, ou pai ou mãe.

prioritário: que tem a preferência, o mais importante.