O IDOSO e o final de sua vida em família

por: Marilice Costi

São muitas as famílias que cuidam de seus idosos com carinho.Quem chega à velhice nem sempre necessita de cuidador ou se torna totalmente dependente. Pode ser que precise apenas de um acompanhante para as atividades externas ou de alguém que o auxilie em serviços na casa. Enquanto não há dependência, o cuidado familiar é possível. Que bom, não?

É importante reconhecer limites na capacidade de cuidar. Dialogar com a família, avaliar se uma casa geriátrica será melhor, se há como continuar onde está, quem poderá ajudar… Quando o idoso se torna dependente, qualquer auxílio é fundamental. E quanto precisam gastar para não sobrecarregar um familiar apenas? É hora de um cuidador apenas na casa? Cuidado com a legislação, pois um só sobrecarregando-se pode gerar processo trabalhista.

Contrate sob orientação e tranquilize-se. Além de atender às necessidades afetivas do idoso, cuidadores cuidam de tudo: medicamentos, higiene e alimentação, até do lazer. É uma tranquilidade, mas isso não tira a responsabilidade da família e a importância de seu afeto. É preciso estar alerta, pois um olhar detalhado e cuidadoso é importante. E o afeto? Muito mais.

Quando se torna impossível cuidar no meio familiar, surgem as dificuldades! Como tomar decisões nessas horas? É preciso lidar com culpas e sentimentos de abandono, dores registradas em cada um.

Inevitável a mudança, é hora de procurar o melhor de acordo com nossas condições para cuidar de quem amamos. Quantos de nossa geração foram orientados a seguirem suas vidas com independência e feito o lastro para a velhice?

Edição 38 - revista O Cuidador - orgulho de ser

Capa da revista O Cuidador, edição 38. Uma avó em leito de hospital acaricia sua neta e recebe o beijo na testa de seu neto.

Uma pessoa na família é parte de uma rede, compõe um grupo. Estando em sofrimento, busquem alguém com experiência em cuidados, um terapeuta, um religioso, um amigo. Mas se for preciso cuidar da família junto com nosso querido, é hora de procurar um especialista em cuidados paliativos. Cuidar de todos.

Tivemos uma matéria na revista O Cuidador, que explica todo o seu trabalho. Se desejar acesso a Biblioteca Online da revista O Cuidador e solicite a edição com este tema.

Lembro que estava grávida, meu pai esperou que eu chegasse, logo se desconectou da vida e foi levado para a UTI, onde morreu longe da família na manhã seguinte. O melhor teria sido ficar conosco e anos despedirmos em paz. E teríamos escolha? – disse-me uma cuidadora familiar. Se tivéssemos o cuidado paliativo, certamente, a decisão do cardiologista não seria atendida. Era 1987.

Preocupam-se assuntos como esses e como falar com os filhos, melhor enquanto há lucidez. No entanto, eles não querem falar da morte, negam como se ela não existisse para mim. É bom sentirmos isso. Nenhum de nós sabe ver a morte como algo natural como foi com minha mãe, que viveu no meio de seus amores até pouco tempo antes de se ir, aos 96 anos.

Cuidados Paliativos – matéria na revista O Cuidador, trabalho docente. Página 12 (1/4)

Precisamos encarar a morte como um final de trajeto, a velhice como um tempo de sabedoria adquirido e de afetos construídos a compartilhar com todos. É preciso falar da morte nas escolas, como os alunos entenderiam esse tema?

O tempo que hoje só gera incertezas mais com tantas coisas ocorrendo.

O tempo de cada um de nós vai chegar… se eu puder escolher, não quero estar presa a equipamentos, mas perto de quem amo.

Escolher enquanto temos lucidez é o melhor. Preparar o final para não deixar dívidas… Isso até entristece um idoso, porque quando deveria descansar e viver seu final com tranquilidade, vai gastar também para ter lugar derradeiro.

Espero ser ouvida em meu direito de escolher quanto ao modo de me ir antecipadamente e, na hora certa e final, tranquilamente encerrar minha vida neste lugar. Ir-me como o clichê antigo de “uma vela que se apaga”, como uma caneta que termina a tinta, como um sopro de brisa no final da primavera, como um quadro terminado que se emoldura e põe-se na parede. E talvez encerrar apenas um de nossos ciclos.

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Marilice Costi é especialista em Arteterapia, escritora, poetisa, criadora e editora-chefe da revista O Cuidador (2008-2015), hoje on-line. É arquite­ta e urbanista, mestre em Arquitetura. Recebeu diversos prêmios em literatura, tem livros publicadosGatilho na Palavras, Como controlar os lobos?, A fábula do cuidador entre outros. Recebeu Prêmio Açorianos 2006 com Ressurgimento. Criou a primeira oficina de poesia em 1995. É membro  da Academia Literária Feminina do RS e da AATERGS (Associação de Arteterapia do RS). Dá palestras. É mãe cuidadora. 

coraçõesA plataforma www.CUIDAQUI.com é o novo projeto para cuidar pessoas com deficiências e quem cuida. www.sanaarte.com.br 

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