Nasceu o irmão! CUIDADOS & LIMITES

por: Marilice Costi

Quando meu filho caçula nasceu, meu filho autista teve uma "crise de histeria", disseram os médicos. Não parava de mexer as pernas dia e noite, mesmo na cama, dobrava e esticava-as sem parar.

Foram feitos muitos exames para descobrir se havia tumor cerebral, lesões ou outras coisas mais. Nada foi encontrado. Meu filho repetia que seu problema era nas pernas, claro, o autista tem esta visão concreta das coisas.

Então, fomos a um ortopedista para descartar as pernas de um diagnóstico que se mostrava emocional e ele se tranquilizar em relação a isso. 

Na consulta, ele repetia ao médico que tinha problema nas pernas! O médico me olhava e dizia:

- Isto é neurovegetativo. 

Então lhe perguntei se havia algo para poder convencê-lo, pois eu não sabia como fazer. Muito gentilmente ele nos passou um pedido de Rx das pernas e fomos embora.

Ele estava com 16 anos e já era bem independente para as atividades do dia. Sabia ir à escola de ônibus (naquele tempo os riscos eram menores), higienizar-se, alimentar-se, escolher roupas e organizar as coisas da escola. Ele ainda tirava o lixo, arrumava as camas e a mesa para as três refeições. Todos em casa tinham tarefas a cumprir. 

E então nos encaminhamos para a fila para o Rx. 

Enquanto esperávamos a recepcionista com um pedido de urgência, me dei conta que, de certa forma, estava tendo a minha atenção desviada do cuidado do bebê com poucos dias. Eu estava exausta e me sentia mal com um tipo de chantagem por estar sendo mãe novamente. E decidi dar um basta! 

Assim, olhei bem nos seus olhos e disse-lhe:

  • - Filho, já recebeste toda atenção e cuidados que precisou, foi hospitalizado e fez muitos exames. Foram vários dias complicados entre cuidar de ti e do teu irmão. A tua chantagem comigo termina aqui! Teu  irmão tem poucos dias de vida, depende totalmente de mim, é frágil. A partir de agora, não darei mais atenção às tuas pernas. Se cair na rua, vai ter que se virar sozinho. Tu és grande, sabes te cuidar,  comer, ir ao banheiro, arrumar as coisas da escola e te vestir. E nosso bebê, teu irmão, precisa de mim para ficar vivo!

E fui embora sem olhar para trás.

Uma hora depois, ele chegou em casa e foi para o quarto. 

Nunca mais falamos no assunto, não dei mais importância a ele e a vida seguiu normal, apenas com cuidados de seu psiquiatra e a escola.

Existem momentos em que é preciso deixar bem claro – a qualquer filho – quais são os limites de cada um, até onde cada um de nós pode ir. E isso, pela minha experiência, vale para qualquer filho, tenha ele deficiências ou não.

Marilice Costi é escritora e mãe cuidadora, Especialista em Arteterapia. Ministra oficinas, workshops, cursos. faz palestras. Publicou diversos livros. Confira aqui as suas publicações

É CEO do Cuidaqui.com - A Plataforma de Produtos e Serviços para o Cuidado de Pessoas Especiais e de seus Familiares. Uma startup gáucha de impacto social (SEBRAE).