Medicamentos psiquiátricos: um alívio ao sofrimento

por: Marilice Costi

Hoje é dia dos médicos!

Agradecemos e o homenageamos os médicos com esta matéria de Jorge Alberto Salton.

psiquiatra em Passo Fundo/RS, trabalha com transtornos afetivos e ansiosos e faz psicoterapia interpessoal. Está sempre com o celular ligado para acolher ansiedades de pacientes. Porém, não está ampliando clientela. Prefere lecionar na Faculdade de Medicina.

Também faz filmes sobre temas médicos, uma nova forma de estimular os estudantes de Medicina a se envolverem nos estudos. Tem sido convidado para dar palestras a médicos em eventos em várias cidades do Brasil sobre o tema como gostar de ser médico hoje.

CUIDAQUI – Fala-se muito de que esta ou aquela pessoa é bipolar. Mas a oscilação entre a tristeza e a alegria são também do ser humano. Quando isso se caracteriza uma doença? E há como impedir este sofrimento?

JS - Desde que surgiram artigos sobre o espectro bipolar, parece que todo mundo virou bipolar. Mas o bipolar, de fato, todo mundo sabe que ele é. Diz-se que a família sabe, os colegas sabem, o bairro, a cidade. As oscilações são marcantes: a pessoa pode estar eufórica, não para de falar, torna-se inconveniente, parece bêbado sem ter bebido. Pode, ao contrário disso, se apresentar calado triste, sem ânimo. Nesses casos, o carbolitium é um medicamento excelente, o melhor que existe. A pessoa terá de tomá-lo por toda a vida.

CUIDAQUI - Há tantos comportamentos estranhos nas pessoas e nem sempre é possível pensar que seu filho ou irmão está com transtornos mentais. Até porque é um tipo de patologia que assusta muito. Quando é importante definir o diagnóstico? Ou isso aumenta o preconceito com a pessoa?

JS - Na dúvida, o melhor é fazer uma avaliação, levar o familiar ao médico de confiança. Se a doença aparece na infância, é melhor que ela seja tratada logo. Se não for, a criança vai ser prejudicada em seu desenvolvimento, no colégio, na relação com os amiguinhos. O preconceito existe de fato quando no dia-a-dia se percebem sintomas ou comportamentos estranhos e não pela informação (que não precisa ser dada) de que a criança consulta um psiquiatra.

CUIDAQUI - O que é um delírio? Isso só ocorre em quem tem o diagnóstico de esquizofrenia?

JS - Um delírio é uma falsa crença, não corrigida pela confrontação com a realidade e que tende a ir tomando conta de todo o pensamento; o paciente passa a pensar quase nessas idéias. Ocorre não só na esquizofrenia, também pelo uso de drogas, em certos casos dos transtornos afetivos uni e bipolares. Há também os chamados transtornos delirantes persistentes em que a pessoa apresenta somente esse sintoma, de resto ele está bem.

CUIDAQUI - Quais são os sintomas mais comuns da paranoia?

JS - A paranóia é um sintoma (uma idéia delirante em que a falsa crença consiste em achar que, de alguma forma, a perseguem, estão contra ela) que pode aparecer em diversas doenças. Pode ser um caso de Transtorno Delirante Persistente, de uso de drogas e álcool, de Transtorno Afetivo Uni ou Bipolar. No unipolar, o paciente só apresenta sintomas depressivos, só tem esse polo. No bipolar, alterna, ora depressivo, para baixo, ora exaltado, eufórico, para cima.

CUIDAQUI- A internação é um assunto difícil, há famílias que se envergonham disso e outras que negam o fato pensando em proteger os seus do preconceito.  Quais sintomas são considerados para decidir-se por uma internação ?

JS - Só se pensa na internação em situações especiais. Algumas delas são: a) o paciente apresenta um risco sério de suicídio ou de homicídio e a família não tem condições de monitorá-lo nas 24 horas; b) o paciente apresenta um quadro complexo que precisa de cuidados intensivos multidisciplinares: um quadro avançado de anorexia nervosa, por exemplo; c) o paciente apresenta um quadro de risco grave – usuário de crack, por exemplo – não reconhece seu problema e vai avançar assim inevitavelmente para a morte: aí que entra a necessidade de internação contra a vontade. Essa situação vem sendo discutida. Atualmente, é necessária uma ordem judicial para a internação contra a vontade.

CUIDAQUI - E onde internar?

Onde internar é um problema hoje. Houve há muitos anos uma campanha contra a existência de hospitais psiquiátricos, não foram construídos mais leitos em hospitais gerais como prometido. Então, hoje, a população mais pobre tem muita dificuldade para conseguir uma vaga.  E agora com o aumento do número de dependentes de drogas, a situação está muito pior.

CUIDAQUI - Existe também o medo do eletrochoque. Qual é a sua opinião sobre isso?

JS - Houve uma campanha contra esse método de tratamento. Houve denúncias, provavelmente com fundamento, de que ele estaria sendo usado, em certos lugares, em casos em que não era indicado.  Nos casos em que ele é indicado, ele é um ótimo tratamento. Países mais adiantados usam muito eletrochoque. Um paciente com depressão psicótica com risco de suicídio que não responde aos medicamentos, é apenas um exemplo. Essa pessoa poderá ter uma melhora surpreendente com o eletrochoque. Mas, para ele ser usado é necessário sempre o consentimento assinado ou do paciente ou do familiar responsável.

CUIDAQUI - O cuidador familiar é responsável na maioria das vezes pela tomada da medicação. Mas se o deficiente mental não quer tomar, como procederá?

JS - É uma situação muito difícil de lidar. Por isso, para alguns medicamentos, existe a forma de injeção que aplica-se uma vez e age por trinta dias. Assim, o desgaste com o paciente não é diário.

CUIDAQUI - E quando ocorrem efeitos colaterais indesejáveis?

JS - O efeito colateral de alguns medicamentos usados para tratar as psicoses devido ao tratamento da esquizofrenia, bipolaridade psicótica, psicose de drogas, do transtorno delirante persistente é chamado de impregnação. Existem outros medicamentos que aliviam esses sintomas. [Veja o quadro explicativo abaixo.]

CUIDAQUI- Ter medo de barata, de elevador, de lugares fechados, de festas ao ar livre ou fechado e outros medos... é trauma ou pânico?

JS - São quadros de ansiedade. Situações em que a pessoa fica angustiada, com medo. Ela sabe que não é para tanto, mas mesmo assim ela sente. Quando é muito intenso se chama de Pânico. Conforme o evento que desencadeia a ansiedade dá-se um nome. Chama-se fobia social, quando a ansiedade surge em encontros sociais, claustrofobia se é em lugares fechados, para citar dois exemplos.

CUIDAQUI- Pessoas com deficiência mental podem morar sozinhas? Ou, mesmo quando elas assumem seu tratamento, o cuidador tem que estar sempre em alerta e presente?

JS - Tudo depende da gravidade do quadro. O bom senso é que vai determinar. Pelo menos no início do tratamento é fundamental que o paciente fique acompanhado e que a medicação seja administrada pelo familiar. Depois, cada caso é um caso. O cuidador é quem tem o papel mais importante no tratamento. O médico, repassa o que a ciência tem de mais avançado sobre o tratamento, mas o cuidador é aquele que administra o tratamento e que se vincula de forma plena com o cuidado. O médico nem sempre consegue fazer esse vínculo. O cuidador faz sempre. E gente cura-se com gente.

CUIDAQUI - Houve um chavão: de perto ninguém é normal ! É possível dizer que há pessoas normais?
JS - Na psiquiatria, não se trabalha com os conceitos de normal-anormal. Ninguém sabe dizer direito o que é normal e o que é anormal. Trabalha-se com o alívio ao sofrimento. Eu, particularmente, acho que é fundamental o paciente encontrar um médico com quem o paciente possa se comunicar livremente (por celular, consultas mais frequentes, etc.) e permanecer com ele. Pois esta convivência mais próxima facilita a busca pela medicação ideal mesmo que, às vezes, seja necessário tempo para descobri-la. No futuro, teremos medicamentos personalizados, que respeitem a configuração genética específica de cada pessoa. Atualmente, a medicação é produzida baseada em dados estatísticos considerando a maioria, mas sabe-se que cada pessoa é única.

Saiba mais sobre

tristeza & depressão

Tristeza tem um motivo que, em geral, a pessoa sabe qual é. Está relacionada a uma perda ou a uma desilusão. Quando a pessoa volta o pensamento para outras coisas, ela pode inclusive se sentir bem. Já a depressão é algo que atinge a pessoa globalmente, não precisa ter um fator responsável. É uma alteração na bioquímica do cérebro. A pessoa, quando perguntada, não sabe explicar o motivo de estar assim, até tenta relacionar com alguma coisa, mas não há nada que realmente justifique o que sente.

impregnação

reação distônica aguda - Pode ocorrer nas primeiras 48 horas de uso. Clinicamente, observam-se movimentos espasmódicos da musculatura do pescoço, boca, língua e, às vezes, um tipo crise oculógira, quando os olhos são forçadamente desviados para cima. A possibilidade dessa reação deve estar sempre presente nas hipóteses de diagnóstico em pronto-socorros, para diferenciá-la dos problemas neurológicos circulatórios. O tratamento desse efeito colateral é feito à base de anticolinérgicos injetáveis intramusculares (Biperideno, por exemplo), e são sempre eficazes em poucos minutos.

parkinsonismo medicamentoso -  Em geral, pode ocorrer após a primeira semana de uso dos antipsicóticos. Clinicamente, há tremor de extremidades e rigidez muscular. O tratamento com anticolinérgicos ou antiparkinsonianos é igualmente eficaz. Para prevenir, quando se receita o medicamento antipsicótico, junto já se receita o Biperideno.

acatisia - Ocorre, geralmente, após o terceiro dia de medicação. Clinicamente, é caracterizado por inquietação psicomotora. O paciente não tem parada, anda de um lado para outro, não consegue permanecer sentado, não para de mexer as pernas. O paciente assume uma postura típica de levantar-se a cada instante, andar de um lado para outro e, quando compelido a permanecer sentado, não para de mexer suas pernas. No caso, o Biperideno é de pouca ou nenhuma ajuda. A saída é diminuir a dose ou trocar a medicação por outra.

Fonte do Saiba mais sobre: Jorge Alberto Salton - Esta matéria foi cedida à revista O Cuidador.

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