A sabedoria cotidiana das MÃES

por: Marilice Costi

Como é agradável ler histórias que penetram em nós e revivem nossa memória materna! O livro de Márcio Vassalo tem esse poder. Ao lermos suas entrevistas, nos virá à lembrança de momentos essenciais: o desejo de ser mãe, a gestação, a gravidez, o nascimento e o cotidiano eterno. Além da singularidade de cada entrevistada, conhecemos a fé ao enfrentar as dificuldades num universo feito de escolhas e descobertas. E seguimos lendo e penetrando no valor da maternidade.

Ser mãe é ter um desconhecido ao colo, que com o tempo, será a pessoa mais conhecida.

Uma de minhas conversas com Alda Rodriguez Leite (1) era sobre a perda de empoderamento materno. Foi ela que me ensinou a dar valor ao meu papel. Questionávamos o quanto os especialistas tiravam as mães do prumo (alguns dão prumo!). O quando eles desvalorizavam seus cuidados e as caracterizavam como motoristas de crianças. Afinal, elas as carregavam de um lado para o outro, desconsiderando-se a importância do tempo necessário para viver plenamente esse amor de mãe-filho.

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Helena Carvalho Borja, uma das entrevistadas, fala também dessa perda do empoderamento materno. E isso é muito preocupante, porque leva ao abandono. Ao ver tantas crianças nas ruas, pergunto-me, quando foi que esta criança perdeu a relação com a sua mãe? A mãe perdeu o instinto materno ou nunca o teve? Mas não há só este tipo de abandono. Em que momento a transmissão dos valores passou a ser papel da escola e decisão de especialistas? E, afirma Helena: Os pais ficam ouvindo demais tudo o que os especialistas dizem. (…) Os pais pensam que não sabem nada, eles acreditam nisso. Os pais, em geral, estão sendo tratados como imbecis e estão aceitando isso.

Estive com um psiquiatra, lutando por atendimento adequado ao meu filho num CAPS. Ouvi dele, a senhora é uma mãe belicosa. Confesso que na hora fiquei muito surpresa, mas agora, olhando meu novo livro, fico feliz. Ele quis me machucar, porque não tinha respostas para me dar, mas me disse o que realmente as mães de pessoas com deficiência possuem: a força da guerra, que nem sabemos bem onde fomos buscar a não no nosso amor.

Muitos profissionais ensinam e cuidam, e há os que estimulam muitas crianças a crescerem antes do tempo pelo grande motivo: elas terão que trabalhar para participarem da renda familiar. Elas terão que produzir, porque muitas são totalmente responsáveis pelas contas familiares. E há como mudar esses caminhos de tantas responsabilidades? Onde foi que o Estado desconsiderou o valor do cuidado materno valorizando mais a produção? Isso não é culpa da mãe, é do ciclo em que vivemos, na economia do consumo, e que exige renda para ter. Sou feliz porque possuo bens materiais, não porque sou. Os valores distorcidos.

Betty Carakushansky Wainstock, outra mãe, relata sua realização e felicidade ao ter tido gêmeos, e isso faz com que eu lembre dos meus. Suas histórias me fizeram voar no tempo. Suas falas? Eram sempre encantadoras, plenas de emoções e descobertas. Um dia, um dos meus meninos com desenvolvimento lento – como se dizia na época – surpreendeu-me ao perguntar se o cano que aparecia na areia e que ia até o mar era aquele que o enchera de água. O outro gêmeo sempre teve presente em seus brinquedos o desejo de justiça? Quem lhe ensinou o valor do herói? E daí, disse ele, Robin Wood dividiu as coisas e todos e viveram felizes e depois morreu de velhinho. Minha filha, que trouxe a doçura e a alegria, não queria ser parecida com a mãe. E tinha razão. Eu corria de um lado para outro entre a faculdade, o trabalho e a casa, e as idas a muitos especialistas. Meu filho menor? Me alugava à noite para que eu lhe contasse mais histórias. Num certo dia, ao ver que eu passava batom preparando-me para sair com seu pai, disse-me: Não sou mais o teu loirinho, tu já escolheu meu pai! –ele tinha 3 anos. E mais, que eu tinha os cabelos de sol, quando os encrespei, e que o sol ao encostar nas águas do Guaíba se apagava. Ele ouvira que o sol era uma bola de fogo.

As descobertas diárias de meus filhos sempre me divertiram e me encantaram muito. E eu as registrava. Quantas mães tem essa possibilidade de ouvir, ver, perceber e assim compreender o que se passa com eles? E registrar? E mesmo assim,eu carregava sentimentos de culpa, de medo, de incertezas, de tristeza, porque era muito difícil administrar tudo com um filho autista.

Assim como estou contando um pedacinho da minha vida para você, as mães do livro trazem a beleza da diversidade, num diálogo de doces lembranças e muitas decisões. O texto agradável  nos direciona ao maravilhoso: o valor da vida, que temos dentro de nós e que apenas passa a existir quando vivemos no universo de fraldas e mamás,  dores de barriga, cuidados noturnos intensos e dias corridos.

Com rara sensibilidade e profundo respeito por 18 entrevistadas, Márcio Vassallo leva o leitor a mergulhar nas vivências dessas mulheres, e, de conversa em conversa, traz à tona ideias que fazem refletir sobre a educação de crianças e jovens de hoje, com seus desafios na formação das novas gerações.

Mães, o que elas têm a dizer sobre educação é um livro composto de entrevistas com mulheres de idade, nível de instrução, estado civil e classe social diferentes. Além de uma homenagem à maternidade, valoriza o papel da mãe na formação de pessoas, orientadoras do futuro da própria humanidade.

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  • AUTORA
  • Marilice Costi
  • www.marilicecosti.blogspot.com
  • Esta DICA DE LIVRO foi publicada na revista – O Cuidador, edição 38, Ano VII, p.18-21.