Histórias que nos cuidam (Alda Rodriguez Leite – In Memoriam)

por: Marilice Costi

Alda Rodriguez Leite acolhia mães e pais com um carinho profundo, um olhar no fundo do olho. Um olhar de colo que só existe nas pessoas muito especiais. Impossível não perceber que ela tinha empatia fora do comum com os familiares e com as pessoas com deficiências.

As minhas crianças adoravam brincar com ela, disputavam até sua despedida na sala de espera ao final da sessão. Alda não era muito de beijos e abraços. Ela era um olhar inteiro para dentro da gente. Um sorriso que acolhia.

Fga. Alda Rodriguez Leite

 

UMA HISTÓRIA DE ALDA

A mãe chegara desesperada. O marido não queria mais saber dela, sempre exausta, sempre com a mente colada na menina que não acompanhava a escola, não seguia no ritmo normal, tinha desequilíbrio para caminhar, não se comunicava bem, exigindo dela corridas intermináveis a fisioterapeutas, neurologistas, pedagogos, psicólogos, fonoaudiólogos e outros terapeutas mais.

A mãe estava sem dinheiro, não conseguia mais pagar seu aluguel, nem comprava mais roupas e nem tinha como ir cortar os cabelos. O pai fora embora. Tudo muito complicado e delicado. Exausta, disse à Alda:

  • - Só tenho vontade de chorar. Recebi aviso do meu chefe. Serei demitida do emprego se faltar novamente. Como vou continuar?  Não sei mais o que fazer para ajudar Luiza. Não tenho mais de onde tirar e estou só. Nem o pai quer vê-la.

Alda era orientadora de muitas mães. Elas não tinham com quem compartilhar. Era um tempo sem Facebook, sem associações como hoje, as mães eram consideradas "mães geladeiras", incapazes de amar e se vincular ao filho autista... Um peso enorme. 

- Cancele todos os atendimentos de Luiza. Pare com tudo. Não leve mais a médico nenhum. - disse-lhe Alda. Fale com seu chefe para tirar uma semana de férias. Saia com sua filha. Vá se divertir com ela.

Alda era sábia. Um cuidador esvaziado não consegue cuidar. Adoece muito. Ela tinha o raro olhar de cuidados com o invisível e tão cansado cuidador familiar! 

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Essa história, ela me contou quando já estava numa situação complicada de saúde. Ela se foi antes de envelhecer, deixando muitas mães órfãs. Muito me ensinou o importante na família. deixou-me com essas histórias contadas sem preparo algum, nem papel nem gravador. Até agora, ela continua me ensinando através delas e é nela que penso quando sinto falta de colo. Para ela, nada ficava bem se o familiar estivesse mal.

NOTA: Esta matéria foi baseada na Revista O Cuidador, online, Ed. 17. Acesse revistas aqui e poderá adquirir essa ou outra edição.

 

Cuidaqui corações

MARILICE COSTI é Especialista em Arteterapia, atende em consultório (AATERGS 072/0808) e é escritora. Editou durante 7 anos a revista O Cuidador (hoje online). Tem 8 livros publicados. Acesse a opinião de leitores aqui - A fábula do cuidador, Gatilho nas Palavras, Ressurgimento, Como controlar os lobos? Proteção para nossos filhos com problemas mentais, entre outros. Aguarde A palavra e o cuidado para 2018. 

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