EMPATIA e AUTOCUIDADO: fundamentais ao cuidar

por: Marilice Costi

Conheci um cuidador jovem e forte, que queria que uma senhora idosa fosse para o jardim do condomínio com a roupa que vestia em casa, onde o conforto térmico era melhor. Ela se negava a ir e ele a puxava. Ela reclamava que sentia frio. E ele lhe dizia que não, que estava quente. Ele vestia mangas curtas. Ela também. Eu ouvi o diálogo ao chegar ao hall do meu andar. Fiquei inquieta e lhe disse:

  • - Coloque um casaco na minha amiga. A percepção da mulher em relação à temperatura é diferente da dos homens. Ela percebe dois a três graus a menos que você. Se você sente-se bem com a temperatura ambiental de 21ºC, ela só estará confortável com 23ºC. Além disso, é idosa. O metabolismo da mulher é diferente. Ela sente frio de verdade, vista-a melhor. Precisas acredite mais nela do que na sua própria percepção.

Mais tarde, conversei com a filha dela e, nos dias seguintes, aquela pessoa idosa, que tinha Alzheimer, não reclamou mais. Passou vestir um casaco sempre que ia dar um passeio com o cuidador.

Colocar um casaco parece ser algo insignificante. Mas não é! Quando sentimos frio podemos nos contrair e formar contraturas, o resfriado no idoso pode seguir para uma pneumonia.

E assim são tantas coisas que um cuidador precisa perceber. Afinal, é ele o cuidador.

Como vamos ter alguém sob nossa responsabilidade se não formos capazes de perceber as suas necessidades? Se não tivermos a capacidade de nos colocarmos em seu lugar, não poderemos cuidar.

A empatia é imprescindível ao cuidado. Se um cuidador não a possui, precisará desenvolvê-la para ter sensibilidade ao observar o outro, para colocar-se em seu lugar, acreditar no ele lhe diz.

Cuidador apoia idoso ao caminhar.

Diziam nossas avós: “Saco vazio não para em pé”. Era para que nos déssemos conta da importância do alimento. Naquele tempo sem Facebook, as mulheres eram as donas do lar, as famílias se reunião às refeições, a mãe era a responsável pela mesa, cama, banho, a organização da casa e dos filhos. O pai era o provedor.

Quem imaginaria a correria dos dias de hoje? O tempo curtíssimo? Nessa corrida contra o tempo, mais que nunca, o autocuidado se faz necessário!

Se não nos cuidarmos, adoeceremos. Alguém fez a conta do quanto adoecem as pessoas que cuidam, quantas doenças crônicas adquirem? Tenho certeza que é enorme. O cuidador geralmente busca o próprio cuidado apenas após atender a pessoa que cuida. E sobra tempo?

Não podemos dedicar todo o nosso tempo aos outros. Assim como diziam nossas avós, saco vazio não pára em pé. Um cuidador que não se cuida entra em estresse: a exaustão do cuidador – burn-out, considerada para profissionais, não para familiares, é uma doença que se instalara aos poucos e quando se instala...

Há quem tenha sintomas de fibromialgia (dores contínuas no corpo, que migram, cansaço ao acordar, desânimo), outros é depressão e também outras doenças crônicas. É preciso ter tempo para si, o momento de descanso e de fazer apenas o que gosta, de encontrar amigos. Um cuidador precisa de vida social, alimentar-se de afetos e ter alegrias, pois cuidar também pode entristecer quem cuida. Você pode dar tudo que ele necessita e sofrer porque não há como voltar ao tempo inexorável. Compartilhar seus sentimentos com amigos faz sempre muito bem e ajuda a compreender o próprio sentimento. O autocuidado é fundamental.

 

 

Marilice Costi é CEO do Cuidaqui.com, escritora, cuidadora familiar e arteterapeuta.