DO SER MÃE 1: A contação de histórias

por: Marilice Costi

Mãe, o que vou fazer agora? Era a pergunta que seguidamente eu lhe fazia, quando já terminara meus temas escolares. Minha mãe sempre queria que eu dormisse após o almoço, porque, além de ser a hora do silêncio para a sesta de 30 minutos de meu pai, eu, hiperativa, lhe exigia muito e a cansava. Muito criativa, ela sempre inventava algo ou me passava alguma tarefa que a auxiliaria em seu trabalho de cuidar do lar.

Dormir após o almoço era um comando dela para que apenas eu ouvisse suas histórias e tê-la só para mim, pois seu colo era dividido sempre entre muitos netos e eu.

A maioria das histórias eu não ouvia o final. Eram todas encantadoras e repletas de animais. O casamento dos ratinhos é a que mais lembro.

- O ratinho Lalau se apaixonou por Marieta e, depois do namoro e noivado, casou-se com ela, a mais inteligente e educada de todas as ratinhas do bairro. No dia do casamento, ele vestiu casaca e pôs na lapela um cravo vermelho como aqueles do nosso jardim que são muito perfumados. Marieta estava com um vestido branco de babadinhos, laços de fita, buquês de rosas biscuit (tínhamos em nosso jardim e eu as conhecia) e sapatinhos delicados forrados de cetim. A grinalda e o buquê exalavam perfumes e todos se encantaram quando ela passou pelo corredor da igreja na direção do altar, onde o futuro "maridinho" a esperava...

Alice me encantava descrevendo cada personagem: o padre e a sua batina, o sacramento e sua importância e cada um dos convidados com seus presentes. Devido à sua competência com a costura e os Burdas, ela descrevia detalhes, cores, movimentos, como todos se acomodaram na igreja, qual a música que tocou... e eu penetrava naquela história contada com uma voz suave de quem está deitada num quarto sombreado, era como se sussurrasse. Após a cerimônia, havia festa com todos os animais da floresta, que teriam vindo especialmente para o casório.

Naquele dia, dizia ela dando ênfase - sempre a nos ensinar o valor do diálogo e o respeito - ninguém brigava com ninguém, todos eram amigos e cantaram e dançaram até o amanhecer, quando os oivos, então, embarcaram em um navio a vapor para a lua de mel no Rio de Janeiro.

Mamãe me ensinava sobre um dos transportes importantes no Brasil. Era década de 50 e eu, por aqui, talvez já tivesse adormecido.

Tenho certeza que meu prazer pela contação de histórias e pelos contos de fadas vêm dessas tardes, quando ela, sempre dividida entre tantas pessoas e coisas, era só minha naquela enorme cama acolhedora, onde ela me cedia o seu lugar, nunca o do papai.

Eram os momentos em que ninguém me tirava do seu colo.

Marilice Costi  escritora e mãe cuidadora, Especialista em Arteterapia. Ministra oficinas, workshops, cursos. faz palestras. Publicou diversos livros. Confira aqui as suas publicações.  É CEO do Cuidaqui.com - A Plataforma de Produtos e Serviços para o Cuidado de Pessoas Especiais e de seus Familiares. Uma startup gáucha de impacto  social (SEBRAE). Dirige Sana Arte.

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Este texto foi escolhido entre muitos para fazer nossa HOMENAGEM às MÃES pelo SEU DIA!

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