Dicas aos pais: O manejo dos sentimentos agressivos

por: Marilice Costi

O amor e o ódio estão presentes em todo relacionamento inclusive na relação pais e filhos, cuidadores e crianças.

Em nossa cultura aprendemos que na relação entre pais e filhos só cabe o amor e que não podemos expressar sentimentos negativos para não desagradar. Com os filhos, os pais descobrem que a raiva também está presente e isso os assusta.

Assim, uma criança pode entrar em conflito por não conseguir corresponder a uma mãe liberal e a um pai ditador, e apresentar tiques ou chupar o dedo para aliviar sua tensão. Quantas vezes a criança manifesta no corpo adoecido, a ansiedade ou os sentimentos que não foram expressos verbalmente? Sintomas físicos, rebeldia e alterações de humor podem se manifestar quando a criança ou o jovem não podem expressar o que se passa no seu interior.

Distúrbios de apetite, tiques, insônia e pesadelos constantes, agressividade excessiva, dificuldades escolares, de fala ou de controle da urina ou fezes podem significar algum sentimento reprimido de raiva ou tristeza. Se a situação de conflito persiste por muito tempo, essa criança poderá vir a apresentar distúrbios psicológicos que podem se manifestar nas dificuldades escolares, dificuldades de concentração ou agressividade exagerada.

Alguns casais separados usam o filho para agredir ou difamar o cônjuge sem considerar o que o filho sente no meio da emboscada. A separação requer dos pais ou cuidadores a disponibilidade para escutar os sentimentos do filho nesse momento.

São muitos os sentimentos que permeiam essa fase. Raiva dos pais por terem se separado, medo de não ser mais amado e perder o que gosta, medo de ser abandonado, culpa pela separação dos pais, alívio por não ter mais de tolerar os pais azedos e constantemente se atracando, desejo de unir os pais novamente, ciúmes de um novo cônjuge, etc..

Enfim, não é a separação do casal em si que gera conflitos nos filhos, mas muito mais o modo como os pais manejam os seus próprios sentimentos de raiva, tristeza e dor nesse momento, e como respeitam e aceitam o que o filho sente.

Como canalizar sentimentos negativos?

A criança precisa de autorização do adulto sejam eles pais ou cuidadores, para manifestar sua raiva, tristeza ou desagrado e aprender a canalizá-los de forma positiva.

Nas situações de agressividade, é preciso que o adulto marque sempre sua posição de autoridade diante da criança, auxiliando-a a se conduzir de outro modo:

Fale da sua raiva para o coleguinha ao invés de bater nele ou mordê-lo. Sei que você não gostou que seu colega mexeu nos seus brinquedos, mas pode falar disso para ele. Você pode falar da sua raiva socando a almofada ao invés de me bater. Sei que você está triste com a separação. Mas, quem está se separando somos eu e seu pai, não estamos nos separando de você.  Isso acalma e orienta a criança.

 

É o adulto que deve oferecer canais seguros para a criança pequena extravasar o seu ódio até que ela aprenda a controlar seus impulsos.

Um menino que está irado com o autoritarismo do pai e não tem um adulto para conter seu impulso destrutivo, pode destroçar o seu caminhãozinho e, depois, sentir-se culpado.

Mesmo o bebê recém-nascido precisa sentir que os pais ou cuidadores acolhem o seu choro de angústia, de raiva ou desamparo. O colo, a canção, o passeio, o aconchego, a carícia e a voz do adulto acolhem os sentimentos do bebê até que ele desenvolva sua segurança interior.

Uma criança aos dois anos e meio de vida ainda não domina suas emoções. Ela oscila rápido da raiva à obediência e da tristeza à alegria. Vale distraí-la ou contê-la com firmeza e delicadeza nos momentos de birra.

O adulto deve falar dos seus sentimentos provocados pelas atitudes da criança: Tenho raiva do que você fez, mas não deixei de gostar de você.

A criança que não tem oportunidade de dar vazão à sua agressividade e que aceita tudo, não aprende que tem direito de defender o que lhe pertence ou de manifestar sua opinião ou sentimentos. O certinho demais poderá se tornar um adulto passivo e superexigente consigo mesmo e com os outros, e se sentir culpado ao desejar explodir e sair da linha.

Muitas vezes, a criança que expressa o que sente, que discorda, ou fala da sua raiva, é mal vista e recebe rótulos de rebelde, gênio ruim, capeta. Geralmente, a família e a escola não conseguem ver o seu lado bom, suas qualidades. Assim, a maioria corresponde àquilo que se espera delas, ela então manifesta um lado bom na escola e outro ruim em casa ou vice-versa.

 

Se o adulto não permite à criança vivenciar situações incômodas ou frustrantes, como ela aprenderá a lidar com sua agressividade?

A criança precisa entender que todos sentem raiva e que não é errado ter esse sentimento. Quando ambas as partes podem falar da raiva que sentem, a relação é fortalecida.

Você não é mau, mas o que você fez é uma maldade. Bateu no colega, ele ficou bravo e por isso ele não quer brincar com você. Sei que dá raiva ter de esperar, mas você conseguirá esperar. Cada um de vocês pode falar da sua raiva sem precisar resolver tudo no tapa.

Se a criança percebe que seus sentimentos negativos também são legítimos e aceitos sem retaliação e punição, evitam-se conflitos, reduz-se culpa e ansiedade devido aos sentimentos contraditórios.

É preciso que esse pequeno ser em formação sinta que tem direito a experimentar amor e ódio, ciúme e amizade, medo e segurança, querer e não querer. E que como todo ser humano, ele tem seu lado bom e seu lado mau, o qual precisa aprender a dosar.

 

Como exigir da criança um manejo positivo de sua agressividade se ela vê o adulto resolver tudo no grito ou assiste ao pai bater na mãe e quebrar tudo em casa? Ou se o adulto pede à criança, aos gritos, que ela fale mais baixo?

Quando o adulto tem dificuldade de aceitar e entrar em contato com os seus sentimentos e de tolerar a hostilidade em si mesmo, maior será a sua dificuldade em lidar com o manejo dos sentimentos agressivos da criança.

Esta história de que lá em casa ninguém briga, é tudo tranquilo é sinal de que a hostilidade fica guardada e os conflitos abafados. Além de tudo, há um esforço para parecer que tudo vai bem. A falta de um espaço para falar das suas ideias e dos sentimentos negativos pode levar o jovem a buscar nas drogas uma pseudoproteção ou um antidepressivo.

Na convivência familiar é preciso que existam momentos agradáveis, sem televisão, ao redor da mesa, na varanda ou no quarto onde cada um é ouvido sobre o  que sente, sobre o que faz, sobre seus projetos e ideias. É preciso aceitar como legítimos também os sentimentos de rancor, ciúmes, impaciência, ódio, etc.

Tanto a atitude permissiva do adulto, quanto a de superproteção não permitem que a criança aprenda a controlar seus impulsos agressivos. Assim, ela acaba sentindo-se desprotegida e angustiada.

A agressividade infantil não deve ser reprimida e sim controlada, o que será essencial ao treinamento da iniciativa própria, repercutindo na fase adulta e na organização de sua personalidade. Por isso é também importante que os cuidadores ou pais reconheçam seus próprios sentimentos negativos e aprendam a lidar com eles adequadamente.

Ângela Maria Amâncio de Ávila é psicóloga e atua na área familiar. Autora do livro Sem receitas para pais e educadores. Vive em Araxá/MG.

LIVRO INDICADO: 

ÁVILA, Ângela Maria Amâncio de. Sem receitas para pais e educadores. 

Matéria publicada na revista O Cuidador. Porto Alegre: Sana Arte, Ano VI, ed.31, p.18-19.