Como vão nos cuidar se continuarmos invisíveis?

por: Marilice Costi

No Facebook, uma mãe me conta que sente medo do filho. Ela diz que ele, no início da adolescência, reage e quer agredi-la, pois não suporta um “não”. É como birra de criança de 3 anos, ela diz. E meu filho com mais de 40, faz a mesma coisa. Desde pequenos sabemos de sua intolerância à frustração e, quando isso ocorria na casa de alguém da família, era ainda pior, pois eu perdia o controle da situação.

Mostrar segurança (ele precisa sentir isso) e contê-los até que relaxem parecem ser mais fáceis quando o filho é pequeno. Mas será que é assim?

Meu filho tinha entre 5 e 10 anos e eu conseguia contê-lo fisicamente. Eu o levava ao banheiro, eu sentava sobre a tampa do vaso sanitário com ele sentado em meu colo de costas para mim, para que não me machucasse, até que parasse de se debater, o que poderia levar até 40 minutos. Era o melhor lugar na casa e assim eu protegia seus irmãos da cena que se estendia. Também queria demonstrar-lhe que estava com ele, auxiliando-o a conter raiva e força. Eu ficava dolorida no dia seguinte, com contraturas, exaustão. Talvez nesses momentos é que tenha se instalado a fibromialgia, tão comum aos cuidadores.

Com o tempo, o tratamento permanente e as medicações ajudaram, mas a adolescência trouxe outro cenário. E novos sintomas de manejo tinham que ser descobertos, o que me angustiava muito. Se me agredisse, eu chamaria a polícia, ameaçaria com a Brigada Militar, ele que se arriscasse! Fazia o que se deve fazer com filhos com drogadição ou outro transtorno e que nos ameacem. Fui muito orientada de que não deveria dar chance de me baterem. Nunca. Ajustar isso na cabeça de um filho é pior do que na cabeça de uma mãe. E ao nos protegermos estamos protegendo a eles também.

Depois de um tempo, o envolvimento de meu filho com estranhos e a falta de limites foram assustadores. Eu não tinha o que fazer quando ele saia de casa e sumia pela cidade. Não o encontraria se fosse atrás e não conseguiria alcançá-lo, ele era alto e corria.

Filhos especiais não são os únicos adolescentes que reagem a limites. No entanto, dizer não aos filhos é fundamental: a vida exige de todos nós esse aprendizado para que possamos conviver uns com os outros.

É mais complicado o manejo dos pais por causa de suas reações. Elas podem ir desde a apatia até o bater-se com a cabeça na parede, pois diante de sua grande dificuldade de absorver aquele “não”, a frustração pode ser muito intensa.

Há pais que se sentem mal por terem reagido, dado limites ao filho, e até é normal. Dar limites a qualquer filho gera este sentimento, percebo que isso ocorre mais nas mães que nos pais. Educar dá trabalho. O ruim é que muitas vezes entramos numa discussão e nos culpamos depois. Evitar essas discussões sempre, é melhor. Perdemos uma energia enorme no bate-boca, energia importante e que precisamos para cuidar. Dói? Sim, mas nós, pais, precisamos mostrar as bordas: você pode ir até ali e daqui em diante não pode mais. Não pode por isso e por aquilo... Ponto. Quando você se acalmar nós vamos conversar. O nosso direito termina onde começa o direito do outro, diziam nossos pais, e isso vale sempre em qualquer comunidade e para todos. O respeito aos demais é o que se espera das pessoas em uma sociedade organizada.

Casais unidos são mais competentes, ainda mais em caso de agressividade. Se for possível dialogar e marcar fronteiras, ótimo! Todos se sentem melhor. Mas há momentos em certas famílias, nos quais a força paterna pode ser fundamental, pois filhos homens medem força com os pais. Já as mulheres separadas, mães com pátrio poder, precisam dar todos os limites sozinhas e os filhos medirão força com elas, e sabemos, nós mulheres, que não a temos.

 

Limites são necessários e isso não vale apenas para quem tem filho autista. Lidar com a frustração também. Quantos nãos recebemos na vida! Lembremos que a criança não aceita ouvir um “não” já nos seus 3 anos, faz birra, se atira no chão, grita, morde, apronta. Pais com tranquilidade podem lhe dar limites claros… mas como é difícil! Precisam ajudar essa criança a compreender limites.

Pessoas com dificuldades psicossociais também fazem birra e poderão seguir fazendo por toda vida. É como se não passassem dessa fase imatura. “Meu filho não aceita um não!”. Essa frase, escuto com muita frequência de mães de filhos adultos, com síndromes, transtornos etc., e também é o que ocorre frequentemente com meu filho.

Ele ainda se comporta como se criança fosse em muitas situações para obter ganhos. Planeja saídas desnecessárias e sei que o que quer é rolar pela cidade. Quando não permito, incomoda, perturba, bate porta. Desde que ganhou celular, mesmo que seja importante para nos comunicarmos, isso ficou mais cansativo. Liga sem parar para a mãe, para irmã… e por aí vai para reclamar! E ameaça também! Logo reconheço o seu jogo, mostro a diferença entre ficar brava, conversar e ameaçar. Nem sempre adianta, mas tento. Isso cansa…

SUS - busque seu cuidado

Há tempos, vivi uma situação com a mãe de um rapaz com esquizofrenia. Quando me contou o ocorrido, levei-a à Delegacia da Mulher. Ela tinha o olho roxo, estava muito machucada e com dores no corpo. O filho, em surto, mesmo medicado, também quebrara a casa – o seu transtorno é refratário. Nessa Delegacia, não demoraram para nos atender. Mas nada poderiam fazer, pois ele é inimputável! Devíamos ir à outra Delegacia comum, a do seu bairro, fazer um boletim de ocorrência. Também orientaram sobre a Defensoria Pública para interditá-lo – interdição é proteção e valeu muito com meu filho (trarei isso em outra matéria, aguarde!).

A mãe negou-se a ir à Delegacia. Não falaria com um homem sobre o ocorrido, mesmo que eu dissesse que um registro desses poderia auxiliar na hora de uma internação ou interdição. De lá, ela ainda teria que ir ao IML para exame de corpo delito. Hoje, eu sei que poderíamos ter ido à emergência do SUS ou à UBS mais próxima de sua casa, onde ela seria atendida com muito carinho e seria feito um cadastro.

 

É muito importante cadastrar essas agressões! Os governos fazem suas políticas baseados em estatísticas para que a rede de saúde atue conforme as necessidades da população. Se todos os familiares agredidos se cadastrassem, haveria esta demanda no SUS, portanto, esses casos seriam melhor orientados, os familiares seriam acolhidos. No entanto, naquela data não existia.

Nós, familiares, precisamos estar no cadastro do Ministério da Saúde, no item de violência doméstica contra a mulher. Agressão de filhos ou filhas, netos, irmãos, quem quer que seja! E mesmo com transtornos.

Se um cuidador não se cuidar, como fica? Se não fazemos parte de uma parcela da população que precisa de cuidados na rede de saúde, isso quer dizer que o problema não existe? Como vão nos cuidar se continuarmos invisíveis?

 

MARILICE COSTI é arteterapeuta, escritora, arquiteta e artista plástica. Trabalha com Oficinas arteterapêuticas, de criatividade e de literatura desde 1995. Criou as capas da revista O Cuidador, da qual foi editora-chefe durante 7 anos. É CEO do CUIDAQUI.com. Dá palestras e ministra cursos. É mãe de um autista adulto e vem se dedicando ao cuidado de familiares de pessoas especiais desde 1996.

Glossário

Doença refratária: doença que não responde a medicamentos

UBS: Unidade Básica de Saúde

SUS: Sistema Único de Saúde

IML: Instituto Médico Legal

Inimputável: Não pode ser acusado

 

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