Como estimular autistas também

por: Marilice Costi

Fui mãe muito cedo. Ganhei gêmeos, que nasceram com sete meses e meio de gestação. Um dos meus meninos foi sempre mais frágil, demorou para sair da incubadora, para firmar a cabeça, para aceitar alimentação e ter os intestinos normalizados. Caminhou com quase 2 anos e caia com muita frequência. Uma bota ortopédica pesada foi indicada e auxiliou-o no equilíbrio. Aos três anos, magrelo e comprido, nem sempre se entendia o que ele dizia, nem ele nos compreendia. Eu não sabia bem como lidar com ele. Ele se escondia atrás de portas ou em cantos, agredia e se agredia. Nossa comunicação foi piorando e o comportamento dele se alterou mais. Foi quando recebemos o primeiro diagnóstico de um especialista: cognição, equilíbrio, motricidade, comportamento, QI, tudo a menos para a idade. Como era comum na época, a mãe era considerada inadequada, era por isso que as crianças não se desenvolviam bem…

A Caixa de Costura da Minha Mãe - Arquivo MC

A Caixa de Costura da Minha Mãe – Arquivo MC

Passou a receber cuidados de fonoaudióloga. Ensinou-me a utilizar as coisas simples para estimular, como velas para sopros, para melhorar sua fala, rasgar papéis, pintar, completar estórias.

Esses exercícios eu faria com todos em casa, sempre tendo o cuidado de não comparar um com o outro, que seguia melhor. Aos poucos passamos a nos divertir juntos criando coisas em papel, colando, cortando, empilhando. Foram muitos finais de semana. Sempre havia livros ou discos de vinil com histórias ou outras que eu inventava, lembrando certamente de como minha mãe me contava.

Os meninos estão com mais de 40 anos, temos histórias escritas, um livro. Mas só numa de suas últimas internações – necessárias quando o desequilíbrio químico lhe tirava a vontade de viver – que ele recebeu diagnóstico de TEA. E então me dei conta de que eu não fora “mãe fria”. Fui a mãe que consegui ser com meu amor.

Brincar na volta da creche

Meus gêmeos foram para creche. Eu retornava à Faculdade e não me sentia segura deixando-os com empregada. E lá, haveria muito mais estímulos que em casa.

A creche ficava a seis quadras de casa e era quase sempre eu quem os levava e buscava. Foi então que percebi que, de mãos dadas com os dois meninos, um deles tinha a mão sem força, o mais frágil desde o nascimento. O tônus muscular. Então propus um jogo: eu aperto tua mão e afrouxo. E lhes demonstrava. – uma vez eu, e na outra vez, serás tu. E assim, seguíamos até chegar em casa.

No caminho, os meninos adoravam subir e descer uma pequena escada existente na fachada principal do Colégio Militar de Porto Alegre. Pobres brinquedos de puxar! Quicavam de um degrau para outro. Eu aproveitava para contar com eles fixando números.

Com meu apoio, eles caminharam sobre o meio-fio do passeio público. Ao se desequilibrarem e saírem dessa linha imaginária, a contagem reiniciava. E víamos quem ganharia alguma coisa ao chegar em casa…

Eu tinha muito receio de ser injusta, por isso buscava envolver os dois em qualquer brincadeira. Eu tentava o tempo todo.

Passei a ler muitos livros, eu queria aprender a ser uma mãe melhor. Mesmo sendo difícil lidar com gêmeos em diferentes fases de desenvolvimento – era o que eu pensava – o quanto isso foi prazeroso pra mim! Inventava o tempo inteiro.

Nessas caminhadas, eu também chamava atenção a atenção deles para com o vento e os aromas urbanos: gases dos automóveis, flores de jardim, pó quando vem chuva, o sol, as poças de água nas chuvas…

A cidade não era como hoje e eu gostava muito de estar com eles. Perto do Parque da Redenção onde morávamos, era possível também perceber sons urbanos. Cuidados para atravessarem as ruas… Eu ficava muito preocupada quando atravessavam rapidamente sem olhar… Relato isso também no livro Como controlar os lobos?  Eram tantas coisas… tanta fragilidade… tanto a ensinar…

Eles não se lembram dessas coisas que fizemos juntos. Era tempo sem tantas imagens. Mas sobraram algumas em P&B, que compõe um quadro em minha casa. Suas artes hoje são parte de minha memória.

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