Como ensinar hiperativos com simplicidade

por: Marilice Costi

Brinquedos são importantíssimos para as crianças. Elas desenvolvem sua imaginação, aprendem, socializam-se e ainda se divertem. Sem saberem, é através deles que elas demonstram seus sentimentos, revelam suas dificuldades e desejos, e sua criatividade se amplia. Como brincar e desenvolver uma criança com poucos recursos?

Crianças hiperativas, o descanso e o estímulo familiar

Sou hiperativa e solicitei muito a atenção de meus pais. Minha mãe me levava para a sua cama para ouvir histórias. Eu dormia e ela poderia fazer suas atividades. Para isso, ela contava histórias inventadas na hora. Eu viajava em casamento de ratinhos e lua de mel em navio a vapor, ele com fraque e cartola, ela no vestido de noiva rendado e com detalhes de costura que ela sabia como ninguém. Assim que eu pegasse no sono, ela saia do quarto.

Mamãe remendava tudo da casa e fazia roupas tão especiais e modernas para as filhas, que minhas colegas de aula queriam também ser sua filha…

Alice Sana Costi, filha de Marilice Costi, a autora do texto, costura com agulha uma roupa. Arquivo Familiar 1968 - Direitos Autorais MC

Alice Sana Costi e suas costuras   (1968) Arquivo Familiar – Direitos Autorais MC

Tenho certeza que o que sou hoje é resultado do estímulo diário também em minhas andanças pela fábrica. Lá, o marceneiro fez casinha para minhas rãs, moradoras do lago em curva no recuo de jardim, um pombal onde as minhas pombas fizeram ninhos, matraca e reco-reco para meu grupo musical com as colegas. Meu pai ficava bravo porque eu desviava o funcionário da lida, mas eu amava estar entre eles.

Curiosa, eu queria sempre mais. E vendo como eram feitas as coisas, aprendia e então queria novidades.

Quando mamãe viajava, trazia livros baratinhos para pintar ou caça-palavras, jogos didáticos, que escondia em cima do seu guarda-roupa. Eu os recebia só quando ficava doente ou quando eu merecia um prêmio pelo meu esforço na escola.

O ensino também familiar

Mamãe fora professora e gostava muito de ensinar. Fazia isso até com as domésticas, isso ocorreu até morrer. Tudo que elas precisassem para compreender a Bíblia, as receitas, as dicas para tricô ou crochê, as costuras. E incluía verbos e tabuadas comprovadas com grãos de feijão e palitos de fósforo.  Não havia Paulo Freire ainda e ela utilizava elementos de uso diário na cozinha e no resto da casa para seus ensinamentos. Era o que acreditava para fixar na memória. Demonstrava-lhes o raciocínio matemático, a origem das palavras, como usar o dicionário – o livro que mais gostava. Aprendi a amar as palavras também no desafio em busca do seu significado.

Demétrio Costi, pai da autora, lê o Jornal (1968) - Arquivo Familiar - Direitos Autorais MC

ZDC lê o jornal – 1968 Arquivo Familiar – Direitos Autoral MC

Meu pai também admirava os professores. Tinha valor tanto quanto um médico, raros na época. No jornal, ele escolhia um texto e pedia que o lesse e me explicava no tempo curto que tinha entre o cafezinho após o almoço e o apito informando o início dos trabalhos na fábrica, o que o autor queria dizer e a importância da opinião do político, do economista… e de outros. Elogiava o escritor e então, pedia que eu buscasse a tesoura e cortasse o pedaço de jornal, que ele dobrava e colocava no bolso da camisa.

Então eu ganhava um beijo e ele ia trabalhar.

– O conhecimento é riqueza que ninguém rouba, é tudo na vida, minha filha. – Era assim que eles preparavam os filhos, pois tinham consciência de que empresa poderia falir. Se a fábrica fechasse, valeriam apenas os nossos recursos pessoais. E tinha razão.

Lugares de aprender

Quando chegavam as férias, íamos todos à praia. Antes de viajar, mamãe distribuía responsabilidades para cada filha. As mais velhas arrumariam os medicamentos, suas roupas e coisas da cozinha e eu prepararia o costureiro para levar, meus brinquedos, livros.

Jogávamos Três Marias, feitas de pequeninos sacos de tecido feitos por mamãe, cheios de arroz ou feijão, Damas e Trilha, General e Batalha naval, e, com barbantes, botões, batatas, rolhas, papel machê entre outras coisas, mamãe se transformava em minha professora de criatividade.

Ela exigia ordem na casa com todos. Materiais de escola e meu quarto eram comigo (confesso que nem sempre era como ela queria). Ela ensinava a compreender a formação dos conjuntos de coisas dentro das gavetas da casa. Eu escreveria a lista do que faltaria para as costuras da próxima semana também, quando ensinava as palavras. Ao redor dela, tudo era aprendizagem. Ensinava a viver. Até na máquina de costura: unir peças iguais, separar agulhas, alfinetes, carretéis na ordem das cores, botões por tipo, cor e tamanho. Retalhos, ah! Isso dá outra história!

Quando aprendi os conjuntos biunívocos (bela palavra!) nas aulas de Matemática Moderna, que revolucionaram o ensino preparando as pessoas para sistemas de cálculos complexos futuros (a linguagem dos computadores), eram os botões das gavetas da máquina de costura de minha mãe que estavam ali.

Quanto aprendi com meus pais! Mesmo tendo sempre muitas coisas a fazer e muitos problemas a resolver, ele conseguiam suprir a minha necessidade de conhecimento e a minha hiperatividade. Sabiam como dar conta da minha singularidade? Demorei muito a compreender o quanto e agradecer.

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Marilice Costi

Arteterapeuta (AATERGS 072/0808), escritora, professora, arquiteta e urbanista, é mestre em Arquitetura (Economia e Habitabilidade), consultora, mãe cuidadora. 

Dá palestras e workshops, oficinas e workshops a públicos diversos. (Veja suas Oficinas aqui.) Editou mais de 6 anos as 40 edições da revista O Cuidador e criou as imagens de suas capas.

Autora de diversas publicações. Leia a opinião dos leitores de: Como controlar os lobos? Proteção para nossos filhos com problemas mentais, A fábula do cuidador, TemposFrágeis, Ressurgimento-Prêmio Açorianos 2006 e outros.

Dialogue com a autora nos comentários abaixo.