Casas geriátricas: um NOVO LAR – parte 2

por: Marilice Costi

iDa arquitetura

Todos os prédios contam histórias. Observe como ele é: paredes, telhado, circulação, revestimentos, porta. A segurança e a acessibilidade. Em caso de necessidade de remoção para um hospital, qual o caminho?

Há corrimãos nos corredores? Proteção como uma pequena porta no acesso às escadas nos dois níveis? Luz de vigília, aquela que fica permanentemente ligada à noite para que haja segurança para transitar?

Muitas vezes, é preciso bom senso e os ajustes são feitos.  Rampas são raríssimas em casas adaptadas. Uma rampa, para ser acessível, tem um máximo de inclinação permitido. Um cuidador não consegue empurrar uma cadeira de rodas com um idoso se houver inclinação acima do permitido.

Não pode haver porta de banheiro comunicando-se com as áreas de manejo de alimentos. É importante ter barras de apoio no box e junto ao vaso sanitário. O idoso deverá ter a possibilidade de tomar banho sentado. Verifique se há chuveirinho e banco firme. O vaso sanitário deve ter seu acento mais elevado que o padrão.

E observe a ventilação. Dependendo da região, o clima determina os elementos arquitetônicos para que haja conforto na edificação. Existir uma janela não significa que o ar circule. Observe como é o manejo das esquadrias quando há calor excessivo ou frio intenso. Contraturas devido ao frio e assaduras devido ao calor, escaras que se formam porque o idoso fica permanentemente deitado são comuns. Por isso, o conforto térmico é fundamental.

A iluminação artificial também é importante. Quanto mais idade, maior a quantidade de luz que precisamos. Isto é biológico. Uma criança lê com um décimo da luz que um idoso necessita.

Os pisos devem ser antiderrapantes, laváveis, lisos e impermeáveis na cozinha e sanitários para facilitar a higienização do local. Nos quartos, devem ser de tipo quente, isto é, que não sejam de cerâmica.

Nos espaços geriátricos é proibida a existência de divisórias feitas com material que facilmente pega fogo (fácil combustão), como a madeira, por exemplo.

Idosos precisam de estímulo, portanto, deve existir um espaço de convivência onde possam jogar cartas, ver televisão, pintar ou escrever, ler e conversar.

Da habitabilidade e do conforto

As paredes devem estar pintadas, limpas e sem mofo, o que significa que há ventilação adequada. Muitas pessoas confundem o mofo com outras manchas; um bom profissional

Idosa joga cartas com cuidadora

Idosa joga cartas com cuidadora

é capaz de detectar logo se se trata de infiltrações ou vazamentos. Se houver problemas desse tipo, que são de manutenção, pergunte o que será feito. Mas marque um xis ali na sua lista. Quem cuida de alguém precisa também cuidar da casa que o abriga.

As cozinheiras devem vestir uniforme com touca e luvas. Os funcionários devem utilizar os sanitários destinados exclusivamente a eles.

Verifique se existem telas nas janelas das áreas como cozinha, depósito de alimentos e refeitório para evitar o acesso de insetos ou animais como ratos, pombas (vetores).

Lixo de casa geriátrica pode ser similar a determinados tipos de lixo hospitalar. Portanto, observe como e onde ele é armazenado. Uma casa que cuida de idosos deve estar limpa, sem entulhos ou acúmulo de sucatas.

O esgoto e as caixas de inspeção devem estar com suas tampas. Um buraco no piso ou uma tampa solta é perigoso a qualquer pessoa.

Informe-se sobre limpeza da caixa d´água. É preciso que o reservatório tenha abastecimento garantido por 48 horas.

Existem animais domésticos, plantas, cadeiras no jardim, cuidados ao redor da casa? Uma clínica geriátrica que tem cara de casa é mais bem aceita pelo idoso.

Observe se as pessoas que moram ali demonstram bem-estar, se estão bem arrumadas. Converse com elas.

Os quartos não podem ser em ambientes improvisados. É ali que nosso querido vai passar o maior tempo. Precisa ser ensolarado, confortável, com boa qualidade térmica, e possibilitar a privacidade e o silêncio.

No caso de quartos coletivos, observe se as camas estão muito próximas umas das outras, se há armários organizados para cada idoso.

A casa deve possuir cadeiras de rodas disponíveis para o caso de tonturas, incapacidade de locomoção ou apoio ao cuidador.

O sol é muito importante na higienização dos ambientes. Sua luz é milhares de vezes mais intensa que a de uma lâmpada comum. Olhar na sua direção causa borramento da visão – o que chamamos de ofuscamento, um dos efeitos desconfortáveis da luz. A mesma coisa acontece quando nos deparamos com uma lâmpada inadequada à luminária. Ofusca. Um exemplo é a lâmpada de bulbo transparente, feita para ficar no interior de bojo leitoso. Outras são as de tipo fluorescente – que estressam o nervo ótico sem que se perceba porque possuem um gás iluminante em movimento contínuo – que são muito comumente encontradas em bicos de luz para outro tipo de lâmpada. A iluminação é importante para qualquer pessoa, mais ainda para os idosos.

Áreas de circulação devem ser amplas, bem iluminadas e livres de tapetes, ressaltos no chão, coisas pequenas onde as pessoas podem tropeçar e cair. Fraturas em idosos são muito complicadas de tratar. Muitos têm osteoporose e os cuidados passam a ser outros, mais caros, o que resulta em mais despesas para o cuidador.

Atente para pequenos detalhes de risco: quinas, por exemplo. A indústria moveleira ainda não pensa nisso. Mas o arquiteto, se é que existiu, deve ter pensado e orientado.

A questão do território pessoal é importante. Pergunte se pode trazer fotos dos familiares para colocar no seu quarto, assim como seus objetos de estimação.

Houve acolhimento, esclarecimentos a todas as suas dúvidas? Ponto positivo.

Quando os cuidadores são capacitados, os idosos passam a ter mais autonomia e reagem bem. Cada um do seu jeito. Mas isso não quer dizer que não irão mais precisar da família. Com os cuidados necessários, todos poderão compartilhar momentos alegres com quem ainda irá precisar de seus cuidados, agora não mais no cotidiano exaustivo, mas no momento da visita, no acompanhamento, no tempo de dedicação carinhosa.

Quando o idoso tem memória, convive bem com familiares e, por isso, a casa geriátrica deve ser acolhedora para todos.

 

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AUTORA

Marillice Costi é arquiteta, mestre em Economia e Habitabilidade (PROPAR – UFRGS), presta consultorias em residências e em ambientes de cuidados.

 

Glossário:

prontuário: onde se registra dados.

bulbo: tubo ou globo de vidro.

osteoporose: fraqueza óssea.