A solidariedade, o alimento e a internação

por: Marilice Costi
Familiares também sofrem com uma internação (hospitalização temporária) de um filho que esteja em crise, quando ocorre risco de vida ou pode colocar outras pessoas em perigo. Desequilíbrio químico faz isso muitas vezes.
Ninguém tem o direito de julgá-los, mas muitos falam que "eles internam porque querem se livrar do filho".
Passei por isso muitas vezes e entendo bem o que se passa na família. Já orientei sobre esse cuidado. No entanto, isso não significa ser a favor de manicômios (porque sou totalmente contra!), nem que sou contra tratamentos que descobri e que tratam vozes e outros sintomas, que conseguem tratar essas pessoas e conseguir efetivamente ajudá-las a se integrar à família e à sociedade. Eu tenho lido livros, visto videos e compreendido muitas coisas, cada vez mais. E uma delas é que são vários itens que interferem, portanto, não é possível acusar os pais de culpados pelo desencadeamento da doença, como é o caso da esquizofrenia. É preciso se informar melhor. É importante compreender o que instala o autismo em alguém. São muitas as causas.
Acredito que os pais querem sempre o melhor aos filhos e os educam conforme sabem, conforme aprenderam, conforme acreditam estar acertando. Então, houve um momento em que desisti de buscar diagnóstico. E pautei minha vida em aprender a administrar as dificuldades que esse relacionamento traz. E ponto.
Eu só soube da possibilidade de internar de meu filho quando ele era adulto. Adulto em tamanho, mas não mentalmente. O autismo tem "trancas" na comunicação e "soltá-las" não é fácil. Sempre tentei romper a tranca.
Quando ele era pequeno e tinha comportamentos agressivos provavelmente por não saber se comunicar, eu o levava para o banheiro e, sentada no vaso. pegava-o no colo, ele de costas para mim, e o segurava até o momento em que relaxasse. Então poderia conversar com ele. Os irmãos já sabiam.
Eu me direcionava para o meu quarto, fechava a porta e sentávamos na minha cama. Um pouco de depois, lhe oferecia uma folha de papel, lápis de cor ou hidrocores. Ir para o meu quarto significava "conversa séria" para qualquer um de meus filhos. Então estudei Piaget, psicologia da arte... e entendi através de sua livre expressividade, o que  meus filhos queriam me dizer. Mesmo que não soubessem me explicar. Os seus irmãos nem sempre desenhavam, podiam conversar e nos entendíamos.
Meu filho autista foi internado com mais de vinte anos e, muito antes dessa data, o nosso esgotamento familiar estava acima do limite de suportar.
UM TEMPO DIFÍCIL
Desde o primeiro diagnóstico, os pais sofrem. A infância passa com muito envolvimento dos pais. Somos meio de transporte para tudo. Já o tempo de adolescência vai ser tardio, e é foi o mais sofrido,  pois além das alterações hormonais comuns a todas as pessoas, ao impulso e às dificuldades pela visão imatura do mundo, temos a dificuldade cognitiva. Meu filho não entendia limites, não conseguia dialogar sobre os fatos e muito menos agir com lucidez. Essa foi meu tempo mais difícil. Acredito ser o mais complexo para as familias.
Naquele tempo, minha mãe já era idosa. Eu lecionava em outra cidade, onde ela morava. Eu ia à noite e voltava na tarde do dia seguinte. Minhas aulas eram pela manhã.
Mamãe me esperava com uma sopa gostosa e, na mesa da cozinha, ficávamos um bom tempo conversando. Falávamos muitas coisas e eu lhe contava tudo que estava ocorrendo. Então, do alto de sua sabedoria, ela dizia: Tudo passa! O tempo passa, minha filha, tenha fé! 
O sofrimento dos pais (dos irmãos, dos avós), principalmente quando ocorre a primeira internação, é enorme. Quando aconteceu conosco, eu estava tão esgotada de correr por causa de suas estripulias, que nem sabia mais como era dormir tranquilamente uma noite inteira de sono.
UMA CUIDADO IMPORTANTE: NOITES DE SONO
O primeiro aprendizado que tive foi descobrir que tinha o direito de dormir sem sobressaltos. Outro é que poderemos usar o tempo para nossas prioridades: dar atenção aos outros filhos, que nem conseguíamos reparar, e descansar, conversar com o marido, sair sem preocupação.
Eu havia esquecido como era isso, tão exausta que estava com tantas noites que ele passava com pessoas de rua, no inverno na Praça Redenção. Até que pegou uma pneumonia. Foi quando consegui conversar mais com ele, sentiu que precisava da família e de seu psiquiatra.
Chorei muito, mas relaxei. Com o tempo, aprendi que o direito a descansar, ao autocuidado são fundamentais para nossa saúde e é para toda a família. Esses dias da internação servem também para buscarmos esse novo equilíbrio do grupo familiar, o que se conseguia apenas quando a rotina  adoecida de angústia contínua é quebrada.

Isso não diminuía a tristeza e a tensão ao interná-lo, à insegurança da primeira vez. Mas o colo que recebi e a conversa que me apaziguou com o psiquiatra do Hospital Espírita de Porto Alegre foi tranquilizadora. O melhor era... e ela acreditava no que eu lhe contara.

Certa de que ele melhoraria, foi daquela vez que os medicamentos mudaram e ele se equilibrou.

Pais ainda administram a vida do filho, roupas podem sumir, alimentos são solicitados por ele, remédios especiais podem ter que ser fornecidos, cigarros que não podem faltar... E ir às visitas? Eu me sentia mal, detestava ter que ir à ala de internação psiquiátrica, detestava aqueles encontros com o grupo de enfermagem, pois são pessoas frequentemente duras para que possam suportar tantas dores... E os grupos com familiares, até hoje são apenas para mexer e mexer na mesma história de dor! Ninguém mais de casa o visitaria. Todos estavam cansados, provavelmente com raiva devido ao comportamento complicado dele, e que bagunçava toda a família, ainda sem idade para compreender.

Eu rejeitava essa dor ao internar, sem saber que ela ainda se repetiria por mais cinco vezes, até o momento em que o medicamento o equilibrou, que o médico deu um diagnóstico (O autismo, que eu desconfiava há muito, conforme as novas determinações psiquiátricas, se esclarecia...), o que fez com que a família repensasse tudo, inclusive as acusações de que ele pensava pela minha cabeça, que era inseguro por minha causa, que era um espião... pois contava para mim tudo que acontecia na conversa com os irmãos... várias vezes... enfim, a compreensão da sua singularidade estava na palavra autismo.

Sempre me incomodo com o acolhimento dado aos familiares em hospitais ou em CAPS. Se em vez de reclamar apenas, isso se tornasse  outros capítulos em livros, quantos seriam?

Foram tantas as vezes que me senti agredida... Ninguém olha para o familiar em sua integralidade. Em sua dor de não poder ser um pai normal como outro. (Veja no início dessa matéria, como os pais se sentem...)

A IMPORTÂNCIA DO LIMITE

A cada tentativa de suicídio, mais um aprendizado de uma bipolaridade. Já percebíamos quando ele se tornava eufórico e era certo! Um tempo depois, queria morrer e não sabia motivo algum para  isso.  Compreender seus limites borderlines também nos ensinava.

Aprendi que a chave da casa era um "prêmio", portanto foi com a chave que conseguimos o controle de muitas situações. Quando passava do limite, perdia a chave! E a chave era a sua liberdade de agir. Sem a chave, ele se obrigava a sentar na mesa comigo e conversar sobre o acontecido, sobre o comportamento, sobre os riscos de vida...e aprendeu a negociar. Faço corretamente e sou premiado com a chave! A chave era igual à "responsabilidade".

Nossa! E quantas vezes isso ocorreu!
No entanto, ele aprendia e desaprendia... e se atrapalhava. E tudo começava do "zero". Havia uma nova chance, o recomeço! Do zero! Errou? reconheceu? Começar de novo. Afinal, não é isso que fazemos sempre com nossos erros? Por que com ele, com meu filho autista, não seria igual?
COMO A SOLIDARIEDADE É POSSÍVEL 
Sua peúltima internação marcou a minha vida e sou grata até hoje. Foi no dia mais frio da capital. Chovia, tinha vento...  No dia anterior,uma passeata destruíra lojas, equipamentos públicos e passara bem perto de onde estávamos. Não havia segurança para atravessar a cidade e ir aonde conseguiríamos a internação. Nesse dia, ele queria se matar!
Eu não sabia o que fazer àquela hora da noite. Liguei para a SAMU, não atenderiam e nos disseram para chamar a Brigada Militar e a Brigada Militar chegou pouco depois.
Sua vinda não foi para buscar meu filho à força, como costumavam me contar. A postura do brigadiano foi delicada, perguntou-me se podia conversar com ele e, sabendo que fumava, ofereceu-lhe um cigarro. Sentaram-se para fumar na rua. O brigadiano conseguiu convencê-lo a tomar os remédios e a ir descansar, que no dia seguinte, a mãe poderia ajudá-lo e eles voltariam se fosse preciso, mas que ele acreditava que daria tudo certo. Que confiasse na mãe.
A sua conversa foi um cuidado comigo também. Eu consegui dormir e descansar, o dia seguinte seria mais difícil, mas não tanto como pensava nos dias anteriores.
As passeatas com marginais inseridos nos grupos sociais estavam destruindo por onde passavam e que, no dia seguinte, disse-me o brigadiano, eu teria mais segurança para ir ao PAM Psiquiátrico, que ficava a vários quilômetros de distância, apenas porque o sistema novo da saúde resolvera que a avenida Ipiranga dividiria o território de atendimento na cidade. Não fosse isso, a menos de dois quilômetros e ele teria sido atendido. 
Aguardamos toda a manhã na sala de espera do PAM IAPI, conversei com outras mães: uma muito deprimida acompanhada da filha e outra que tinha o braço quebrado, sem atadura ou gesso, apenas porque não queria denunciar o filho, que há tempos lhe batia. Era drogadito e lhe exigira dinheiro para  comprar drogas. 
Muitos são os sentimentos de dor dos familiares! Se o pai estivesse ali, ele se arriscaria lhe bater?
UM PRATO DE COMIDA
Fomos atendidos por uma psiquiatra delicada, que deu-lhe atenção e me ouviu também, conversou sobre seus medicamentos, da importância de sua manutenção.
Já era hora de almoço. Então, encaminhou-nos para o refeitório, onde havia uma mãe com uma menina de doze anos, que se prostituía... Uma tristeza ver a dor da mãe, a raiva a ser ainda resolvida em sua vida... A menina conversou comigo depois que lhe estiquei o olho com carinho e perguntei se queria colo. E ela veio, me emocionando ainda agora enquanto escrevo... Nem a mãe, nem a menina entendia a complexidade toda. A mãe era medo, a menina também.
Pouco depois, chegou almoço para todos nós. Eu estava toda gelada, tensa ainda, cansada e com muito frio.
Aquele almoço aqueceu corpo e alma! Não lembro de ter sentido isso na minha vida! (E pensei como se sentem as pessoas no frio, nas ruas, quando recebem um prato de comida quente!)
A embalagem de alumínio trazia uma refeição simples: feijão, arroz, uma verdura cozida... simples, mas gostoso. E  todos limpamos o prato, como se diz.
Despedi-me do meu filho, assim que houve uma liberação. Vieram buscá-lo, despedimo-nos e sai.
Na volta para casa, vim agradecendo a quem inventou aquele carinho incluindo os familiares, a impressão gravada de que ele seria bem tratado, e que nós éramos parte daquilo, que precisávamos de cuidados também.
Nunca mais eu me esqueceria daquele lugar, daquele prato de comida, do sabor gostoso e do alimento me aquecendo. Serei grata a todos por toda a minha vida!

Cuidaqui coraçõesMARILICE COSTI é Especialista em Arteterapia (AATERGS 072/0808). Escritora e editora durante 7 anos da revista O Cuidador (hoje online). Tem 8 livros publicados, conheça  a opinião dos leitores aqui - A fábula do cuidador, Gatilho nas Palavras, Ressurgimento, Como controlar os lobos? Proteção para nossos filhos com problemas mentais, entre outros. Aguarde A palavra e o cuidado (Arteterapia & Literatura) para 2018. 

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