A menina que ROUBAVA LIVROS

por: Marilice Costi

Fui ao cinema com uma amiga e tivemos a mesma sensação ao sair do cinema: o desejo de rever o filme A menina que roubava livros. Impossível perceber toda a riqueza humana que ele tem. Na segunda vez, percebi muitas outras coisas e o desejo de revê-lo se repetiu. Então, quis ler o livro, onde o universo se amplia.

Sem ter lido a sinopse da história e sequer ter me dado conta de que o livro já estava em minha prateleira aguardando leitura, a película é me encantou por trazer preciosidades nas palavras, na sonoridade na contação de histórias, na atmosfera que penetra profundamente em nós: Ser pessoa é pensar no que se ama e em quem devemos proteger.19

A rota de uma menina, de sua infância à puberdade, num período de extrema turbulência na Europa, é repleta de humanidade, pois carrega seus opostos: o medo, a maldade, a competição, o bullying, a agressividade e a importância dos amigos e dos pais em nossa segurança e crescimento, além do valor das artes, do desenho, da colagem, da música, da escrita e da leitura.

Os temas nos sensibilizam: a mãe capaz de vender os filhos (a miséria pré-guerra e a perseguição aos judeus), o casal de alemães que adota a menina, a escola repressora, o judeu que se esconde no porão da casa de Liesel, os colegas na escola e no bairro, a mulher do Prefeito e sua biblioteca. Mais do que tudo isso: o poder das palavras e da música.

A alfabetização da garota ocorre de modo rígido na escola e delicado com o pai, que lança sempre desafios e a alfabetiza. A contação de histórias permeia livros roubados, acolhimento na doença, auxílio para o tempo passar, o ânimo e o cuidado em um abrigo só foram possíveis graças aos furtos de Liesel, o que dá título ao livro.

Um contraponto é a destruição de pessoas e livros durante o período do nazismo. O que registra mundialmente o poder da literatura e da história, e que também nos faz desenvolver a capacidade de pensar, de analisar, de ter consciência crítica.

É tempo de um mundo em polvorosa e as perdas na Europa são inevitáveis. Então, quando a sirene não avisa um bairro que haverá bombardeio, o resultado é de extrema dor. Mas ali mesmo, há a empatia do soldado alemão que acolhe a menina… e muito mais.

Tudo o que vem sendo costurado no decorrer da história passa a fazer sentido, assim como a palavra dada, um contrato de vida num derradeiro beijo.

A menina escreve e se compreende com suas escritas, tão comum aos escritores, e que nos encantam pelas metáforas. Pinçamos algumas: Papai, com os olhos de prata inchados de cansaço e o rosto coberto de pelos de barba, fechou o livro e aguardou suas sobras de sono. (…) Era uma menina com uma montanha para escalar. (…) Até a música do papai tinha sido da cor da escuridão.
Em tudo isso, o mais sedutor na história, que me recorda do sucesso de Edgar Allan Poe, é o narrador. É melhor deixar que você, leitor, descubra o quanto escrever é um processo terapêutico e como a Morte – a personagem – pode agir e seduzir para a leitura!

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AUTORA
Marilice Costi
www.marilicecosti.blogspot.com

Matéria da Dica de Livro na Revista O Cuidador – edição 34, SANA ARTE, p.19.