A Empatia

por: Marilice Costi

Não é por nada que as pessoas perguntam umas às outras se este ou aquele profissional é bom. Além da necessária competência profissional, ser bom não é apenas tratar as dores das pessoas, é preciso ter a capacidade de colocar-se em seu lugar. Já escrevi artigos sobre não-cuidadores, aqueles que passaram pela nossa vida e não nos deram acolhimento, porque isso ocorre em muitas situações com familiares de pessoas especiais (1). Continuo preocupada, porque uma pessoa mal cuidada e com sobrecarga por cuidar de alguém, adoece, e muito.

Por que não enxergam aquele familiar que está ali precisando de colo, de apoio? O treinamento para não ter empatia é uma das ações que configuro de treinamento para a falta de humanidade. E muitas profissões trazem isso em seus currículos. Ensinam o afastamento.

A empatia é importantíssima e deveria ser um dos quesitos para trabalhar com pessoas, atendê-las, tratar delas. Cyro Martins traz este tema em um de seus livro. Ele nos ensina a compreender o que o paciente veio buscar no consultório e a cuidar dele em sua singularidade. O livro, que trata a relação médico-paciente, também nos ensina sobre nossas mazelas, traz cada patologia e o que a doença faz com a pessoa, que necessidades passa a ter. Leiam sua literatura e vão perceber mais.#e1f4f3

A literatura tem também este papel: desenvolver a nossa percepção para que entendamos melhor o ser humano. Escritores exercerem seu ofício porque são pessoas empáticas. Como escrever sobre a vida sem se colocar no lugar do outro, o personagem.

E assim, em todas as artes. Elas nos estimulam, ampliam nossa competência humana. E é por isso que são as menos valorizadas em tantos governos? Por isso que Hitler queimou livros? Sim, quando uma sociedade é sensibilizada pelas artes - e aqui considero a arte da escrita também - ela se torna mais empática e reagirá contra as injustiças.

O novo vem vindo

As neurociências vêm comprovando o quanto o cérebro e a mente estão interligados e como os estímulos são importantes nas redes neuronais. Estamos em um dos momentos de enormes descobertas nas ciências, eu diria que vivemos uma nova Renascença, mesmo que olhemos o mundo com descrédito, dentro dessa reboldosa globalizada, vem nascendo o novo. 

Quando recebemos informação em excesso, nosso cérebro não dá conta de processá-la. Pensemos então juntos: se a violência é o cotidiano nos meios de comunicação, ela passará a não chocar mais, tão comum que será em nosso cotidiano. Assim, o sujeito já não se toca mais pela dor do vizinho.

O mesmo com a política. De tanto ouvir, entra-se em processo de saturação. Daí que se fala em não votar mais, desacreditando de todos os políticos, negando a si mesmo o direito pelo qual a sociedade lutou tanto para conseguir, o direito de escolha, o direito de cidadão, o direito de votar. Perde-se referências e a sensibilidade que nos diferencia dos animais.

E esse é o pior risco: o de nos tornarmos incapazes de cuidar, passa-se a fortalecer sentimentos de isolamento e raiva esquecendo-se que fazemos parte de uma sociedade que agoniza, mas que também busca e quer ser melhor. Não se pode dar força a esses sentimentos contrários à nossa humanidade. Precisamos voltar a abraçar, a acolher, a acreditar no ser humano. Precisamos reagir. 

A construção da empatia

Como fica a construção da empatia? Você consegue construí-la? Quando a empatia não é inata, poderá ser aprendida? Ou aprendemos desde a infância copiando os que nos cercam? Entre uma e  outras opiniões de pesquisadores, acredito que se compreende as pessoas com algo a mais do que apenas um olhar. E que é preciso estimular a empatia o tempo. Mostrar a dor do outro poderá sensibilizar alguém que nunca pensou naquilo. E este deveria ser o papel das mídias, em vez de repetir tantas vezes a violência das ruas, que mostrasse a leveza do carinho, do abraço, dos trabalhos sociais em tantos lugares, onde cuidadores invisíveis atuam muitas vezes apenas por amor ao demais.

Há quase vinte anos, um psiquiatra fez oficina de poesia comigo e depois me convidou para organizar uma oficina para seus alunos. Tinha objetivos: desenvolver a escrita ampliando sua sensibilidade na palavra e, posteriormente, estimular seus alunos a perceberem melhor a dor no outro. Queria cuidá-los através da literatura e a poesia seria o canal de entrada. Sem apoio de sua instituição, a oficina não ocorreu. Pouco depois, Cínthya Verri, médica e psicoterapeuta em uma das Jornadas Científicas Internacionales em Montevidéu, falou em uma entrevista sobre a promoção da empatia nos estudantes de Medicina. Com o livro "Perspectivas da relação Médico-paciente" em uma edição comemorativa - 30 anos, reacendo o tema, tão importante no cuidado.

Por que essa preocupação com a empatia agora? Isso não deveria ser inato nos seres humanos que cuidam de outros? Este olhar me choca: animais "assassinados em abates" são mais valorizados nos abaixo-assinados do que apoio às pessoas com deficiências, que tanto precisam de cuidados. A impressão que me dá é que a sociedade tapa os olhos. E isso é usado em redes sociais para divulgar fakes. Usam uma criança com grave problema, não a deficiência psicossocial, mas a física, a que se enxerga. Inventam e pedem recursos. Aquele pedido não tem consistência nenhuma e as pessoas nem pensam. Compartilham sempre sem verificar a veracidade. Buscar a veracidade em tudo é fundamental, pois estamos num tempo de mentiras, de baixa empatia social, mas como já disse, de mudanças.

Cuidadores e a empatia

Recentemente ouvi de uma pessoa que selecionava cuidadores para trabalho em casas geriátricas. Ela me contou que estava assustada, porque a cada cem cadastrados, apenas dois tinham a empatia necessária ao cuidado. Isso é assustador, estamos refletindo a desumanidade encontrada na área política no cuidado fundamental de nossas pessoas vulneráveis? 

 

A taxa de 2% é apenas ali ou em todas as seleções de Recursos Humanos?

Como vamos cuidar de algo ou de alguém, se não tivermos a capacidade de compreender a dor do outro? Quando você cuida, é preciso acolher a história do outro. 

A empatia também vem de berço, quando somos acolhidos com carinho pelos nossos familiares. A base vem ali. O cuidado. A segurança. O exemplo dos adultos ao mostrar sua compaixão e atitude quando alguém sofre. Uma criança inicia seu aprendizado também cuidando de animais que adoecem, compreendendo que podem morrer se não forem alimentados e receberem carinho. 

Para uma criança, a dor dos animais é educativa. A empatia poderá se desenvolver mais assim e é com ela que faremos uma ponte para o amor, fundamental para cuidar de alguém. 

E você?

Observe como e quando ocorre a empatia em você, como sente isso? Se vem controlando esse sentimento para que não penetre em você, qual é o motivo que lhe incomoda tanto? É um sofrimento que não sabe como resolver? Sente-se impotente para mudar? Bloqueia um sentimento porque ele lhe faz sofrer?

Comemore, você tem muita empatia. Tem um poder imenso dentro de você. Um sentimento que poderá canalizar para o bem e fazer muito mais a muitas pessoas.

Comece com algo simples. Observe em seu edifício, em seu bairro, quantos familiares possuem filhos especiais. São pessoas que precisam muito de carinho, a família precisa. Dispor-se a ajudar, mesmo que seja pouco, algumas horas, brincar um pouco, ajudar em alguma coisa... Essas famílias podem ter muitas dificuldades e até medo de lhe abrir a porta. Mas com certeza, você descobrirá como fazer.

Se isso a faz sofrer mais do que consegue administrar sozinha, procure ajuda terapêutica.

Bibliografia

1) MARTINS, Cyro e colaboradores. Perspectivas da relação médico-paciente. Porto Alegre: Artmed, 2011. Edição comemorativa 30 anos.

(2) COSTI, Marilice. Cuidado no acolher histórias! In: Arteterapia. Revista Imagens da Transformação. out/2010. n.14, v.14.

 

Marilice Costi é escritora, arteterapeuta e arquiteta. Faz palestras e dá cursos. CEO do Cuidaqui.com.