Cuidados Essenciais ONDE VIVEMOS

por: Marilice Costi

Nas casas ou em apartamentos, são muitas as coisas que podem causar acidentes: o gato se atravessa na hora de um deslocamento, o cão dorme ao pé da cama, uma roupa no meio do caminho, os chinelos fora do lugar. A cadeira ficou distante da mesa, os tapetes possuem pequenos ressaltos e/ou não têm antiderrapantes, os móveis possuem quinas, os bancos são utilizados para buscar coisas em locais altos? No banheiro, pequenas coisas pontiagudas, piso escorregadio? A banheira ficou alta? A papeleira e o lixeiro inacessíveis? Os índices de acidentes domésticos são altos e chegam a 41%  apenas os que ocorrem do quarto até o banheiro. Mas na cozinha, mais locais de risco: não há escape para vazamentos de gás, as válvulas têm defeito. Há casas que matam (1).

Revista O Cuidador - edição 36 - Arquitetura

Revista O Cuidador – edição 36 – Arquitetura

 

Podemos nos machucar em muitos lugares. Para idosos não sofrerem com dores ou fraturas,  os assentos dos móveis não devem ser baixos, os tecidos não devem ser escorregadios, os pés devem ter apoios, as espumas dos estofados não devem ser nem muito macias nem muito rígidas. E se seu design for com ressaltos cônicos auxiliarão na circulação e poderão até reduzir dores. Quanto mais idade, mais frágeis ficam os ossos, mais delicadas ficam as pessoas.

Perceber as necessidades das pessoas é fundamental(3). Um cuidador ou um familiar atento percebe logo isso. E um profissional mais ainda. Ele pode fazer prevenção.

Idosos, comumente, ficam muito tempo sentados ou deitados. Mais do que deveriam. Precisam ser estimulados a caminhar, portanto, a casa familiar ou geriátrica deve ser acessível à sua marcha. Nada de degraus, muito comuns para dar charme nas residências na década de 70-80, mas cairam em desuso com a humanização da arquitetura. As rampas ganharam lugar, mas nas reformas raramente podem ser feitas. Elas exigem mais espaço para serem construídas, sua inclinação deve ser bem baixa para permitir que um cadeirante se movimente sozinho.

A iluminação é fundamental, mas não deve interferir no sono, mesmo que se acorde de madrugada. É quando a luz deve ser tênue. O comum aos mortais e com a maioria dos animais é acordar com a luz do sol e ir relaxando quando o dia sombreia. Para dormir bem é preciso escuridão.  Nosso cérebro nos informa que é hora de relaxar com o sombreamento do dia. São as luzes intensas e brilhantes que disparam nosso sistema de alerta e provocam insônia em muitas pessoas. A nossa mente poderá informar que houve troca. Desejaremos dormir de dia e ficar acordado à noite, por causa dessa leitura da luz. A grande maioria das pessoas vive nesse ciclo, que se chama circadiano. Faça uma experiência: trabalhe sob lâmpadas fluorescentes numa noite e em outra sob luminárias com lâmpadas incandescentes.  As fluorescentes tubulares distribuem luz uniforme, são menos sombras.  E quanto menos sombra, menos relaxamento teremos. Elas facilitam o trabalho de plantonistas em hospitais, porque mantém as pessoas mais acordadas; nos supermercados, faremos compras sem perceber que as horas passaram (2).

Roupas iluminadas.

Roupas iluminadas em um guarda-roupa

Cuidar da localização e do tipo de luminária e de lâmpada parece simples, mas a luz possui muitas variáveis e são muitos os produtos. Cada lâmpada e cada luminária são para atividades distintas. Há baratas e caras. Isso é um investimento na saúde. Avalie se uma consulta a um profissional especialista na área de iluminação será válida. O resultado será melhor resultado e os custos até podem ser mais baixos. Não pense que a loja dá essa orientação. Ali existem venderores, treinados para venda. É o profissional que avaliará cor-luz da lâmpada, índice de reprodução de cores, a cor das paredes e as lâmpadas utilizadas, qual a luminária para cada ambiente, o consumo, o rendimento… são muitas outras coisas ainda. Ele informará como se pode reduzir as despesas e consumo de energia na hora da escolha dos artefatos.

Cuidar na hora da reforma. Os interruptores  e as tomadas – quantidades e altura – devem ser modificados? As portas que permitam passar cadeiras de rodas…  e a iluminação noturna, como fazer? Como resolver a luz noturna e facilitar os deslocamentos? Cuidadores  também ficam cansados. Precisam aproveitar enquanto a pessoa que cuidam dorme e descansarem também. Mas precisam ficar alertas para eventualidades. Como resolver isso?

Uma casa deve ser acolhedora para nós e para nossos queridos. A casa também guarda nossas emoções. São muitos detalhes onde expressamos nossas necessidades emocionais.

Ninguém quer pensar no envelhecimento, até que ele chega. E há quem não queira pensar nem quando envelheceu. Mas, com delicadeza, um profissional habilitado saberá auxiliar, orientar a família e pensar no conforto de cada um. Os ambientes precisam ser acessíveis a todos. Crianças, gestantes, deficientes físicos, idosos, todos precisam de acessibilidade e de ambientes adequados às suas necessidades de abrigo, segurança, circulação, descanso, lazer, alimento, higiene… Melhor é preparar a casa para todas as etapas da vida. Quem se prepara durante anos para projetar ambientes para o ser humano é também um cuidador.

Tomar medidas ambientais para dar conforto a quem amamos também um ato de humanidade.

BIBLIOGRAFIA

(1) COSTI, Marilice. Casas que matam. I Congresso Internacional de Psicanálise e Intersecções – Arquitetura: Luz E Metáfora: Um Olhar Sobre Espaço E Significados. Porto Alegre, Plaza San Rafael, 2002.

(2) COSTI, Marilice. A influência da luz e da cor em corredores e salas de espera hospitalares. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000.

(3) OKAMOTO, Jun. Percepção ambiental e comportamento. São Paulo: IPSIS, 1996.

 

Marilice Costi é arquiteta e urbanista, mestre em Arquitetura (UFRGS). Especialista em Saúde (SES-RS) e em Arteterapia. Atua na área do cuidado. Vive em Porto Alegre/RS.