Seliz Zozé Sana, meu primo down

por: Marilice Costi

Um dos últimos filhos homens de meus tios em uma penca de oito foi Félix José, que recebeu muito carinho e amor. Era 1947 e depois dele nasceram mais duas meninas.

Em minha casa, a compaixão por eles era sempre presente nas falas na hora das refeições. Meus pais contagiavam a todos com sua empatia com os excepcionais, como chamavam as pessoas com deficiências naqueles tempos. Comentavam das dificuldades para criar um filho assim, as possibilidades dele aprender se fosse estimulado em escola, o quanto deveria ser cuidado em toda a sua vida e o cuidado intermitentemente que os pais, em especial, a mãe, teriam.

Houve um Natal em que reunimos as duas famílias e eram mais de 30 pessoas circulando pela nossa casa. Zequinha, meu primo, adorava receber presentes, sorria e olhava para a varinha que nunca podia perder de vista. Na ponta havia uma tirinha de tecido ou um barbante e ele se deliciava ao movê-la de o tempo todo.

Lembro o sorriso de meus tios ao falarem dele, cujas bases católicas eram muito fortes como era em toda a comunidade italiana. Seu eterno menino era filho de Deus também.

Zequinha tinha mãos com pele grossa e enrugada, sua língua parecia desconfortável a sobrar no espaço bucal, os cabelos eram lisos e pretos, a estatura baixa para um homem, o caminhar típico. Ele se comunicava com os irmãos através de falas curtas e os chamava de modo especial, geralmente com as sílabas finais do nome de cada irmão, compondo sons especiais.
Eu gostava de lhe presentear ou de lhe dar atenção diferenciada e ele me identificava com alegria me chamando por Maiice – também parte do meu nome. Ficava sempre muito feliz ao me ver e eu também ao vê-lo.

Com limitações devido à síndrome de Down, suas dificuldades também eram devido à anoxia ao nascer. O médico dizia que ele tinha retardo, era excepcional – a linguagem utilizada na época.

Moramos pertinho na minha infância. Era preciso apenas atravessar a avenida e caminhar um pouquinho. Logo se via aquela enorme casa de alvenaria com muitos quartos e uma trepadeira  de rosinhas miúdas a decorar o muro da frente.

Certo dia soube que mudariam de cidade. Foi um enorme sofrimento pensar que não teria mais a minha melhor amiga tão perto. Para amenizar isso, houve sabedoria familiar. Durante vários anos, após as provas finais na escola, eu passaria alguns dias na casa dos meus tios em Carazinho. Antes do Natal, titio me traria de volta.

Era o suficiente para conviver com o Zeca. Quando saíamos para passear pela rua principal daquela cidade ainda novinha, minha prima o levava. E isso não me incomodava em nada.

Levavam-no à missa, davam banho, trocavam a roupa, acolhiam seus choros… Na adolescência dos meus primos mais velhos, eles até o provocavam para ver como reagia, mas tudo sempre terminava bem, com um abraço no Zequinha, querido…

Maria Isabel (esq.), Zequinha, Angelina (mãe), Felice (pai), Mariza, Augusto, Ãngela, Ana, Álvaro e esposa.

Imagem do Arquivo da família Sana: Maria Isabel (esq.), Zequinha, Angelina (mãe), Felice (pai), Mariza, Augusto, Ãngela (à frente), Ana, Álvaro e esposa.

Quando meus tios faleceram, Zequinha se vinculou muito à Marisa, uma das irmãs, a que se responsabilizou sempre por ele.

Naquele tempo, as famílias escondiam esses filhos, Zequinha não. Ele era visível,uma pessoa protegida, amada, que sentia-se parte da família.

Nesta Semana Estadual da Síndrome de Down no RS, desejo homenagear seus cuidadores. Agradeço por terem me ensinado a aceitar o diferente, por terem me permitido viver e compreender seu amor.

Zequinha nos deixou aos 53 anos após o quinto AVC e tenho certeza que deixou muitas saudades daquele eterno menino que sorria com os olhos.

 

 

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Marilice Costi é escritora, arteterapeuta, arquiteta, editora. Recebeu Prêmio Açorianos 2006 para o livro Ressurgimento. Entre suas demais publicações estão: A fábula do Cuidador e Como controlar os lobos? proteção para nossos filhos com problemas mentais. Dá palestras e workshops. Ministra Oficinas, também com o foco em Arteterapia e escrita.