Saúde ao Filho, Lugar para a Mãe

por: Marilice Costi

Era quase noite quando recebi um telefonema de uma cliente pedindo informações sobre meu trabalho, se eu poderia ir ao seu novo apartamento para colocar seus quadros nas paredes. Parecia ser muito simples dar-lhe uma consultoria. E logo agendamos minha visita.

Primeiros contatos

Ao chegar, vi um homem fumando no condomínio e soube depois que era o filho da minha cliente.

A mãe deveria ter mais de 70 anos e era uma pessoa delicada. Demonstrava carinho pelo filho, parecia aceitar a doença. Contou-me dos surtos. Em um dos últimos, quando ele rebentara o que havia no seu quarto, foi preciso a vinda do psiquiatra em casa. Atualmente andava bem, fazia aulas de pintura com um artista, usava telas (30 x 20cm aprox.) e tinta acrílica. Pintava com cores puras, geralmente primárias, desenhos em estilo primitivo. Mesmo com sintomas de isolamento devido à esquizofrenia, ele conseguia ir às aulas e vinha melhorando a autoestima e a comunicação. Colecionava quadros com imagens dos membros da grande família. Eram imagens vibrantes. A mãe possuía alguns quadros pelos quais tinha afeto: “Este meu marido ganhou, este é de família…” e outros apenas lhe agradavam.

Andei pelo apartamento observando tudo. Recolhi todas as obras em um só local, fiz a contagem e medi-as para ter noção de quanta superfície de parede seria necessária. Conversei muito com a mãe e combinamos que eu retornaria com uma proposta e, se ela quisesse, eu viria acompanhada de um funcionário, com furadeira, buchas e parafusos.

Estudando a proposta

Como organizar tudo e manter o bem-estar na casa? Cores saturadas e vibrantes são cansativas, estimulam muito, como distribui-las na casa? O que fazer com as telas futuras?Quando se faz projeto de interiores e na família existe uma pessoa com transtorno mental é preciso atender às necessidades dessa pessoa também. E, neste caso, era importante valorizar tanto os seus quadros (sua expressão artística) quanto os quadros da mãe.

Levei o quebra-cabeça para casa e fiz meus estudos.

Decidi propor uma parede na área social para todos os quadros do filho, sua área de exposição permanente como uma galeria. Onde? Onde houvesse visibilidade para o ele. Quando essa parede estiver repleta de quadros, ele teria que escolher qual quadro sairia dali para vender ou para dar a alguém. Combinação feita entre ele e a mãe?

Os demais quadros pertencentes à história de vida da mãe seriam distribuídos para lhe dar bem-estar e  estariam em seu ângulo de visão. Era importante dar qualidade de vida também a essa mãe tão cansada, tão esvaziada. Olhar para o que estimula lembranças agradáveis alimenta o nosso interior.

Mãe sentada olha para a frente, ao fundo uma janela e à direita, quadros na parede.

Arquitetura e Saúde Familiar

A execução

Após a aprovação da proposta, retornei acompanhada para fazer as marcações. Foram feitos 40 furos para os quadros do filho.

Os parafusos eram adequados à carga de cada quadro, pois os da mãe eram mais pesados. Os furos feitos um atrás do outro aqueciam a furadeira e alguns cuidados foram necessários para seu esfriamento. Também tivemos o cuidado para não rebentar o reboco, pois se ele rompesse, o parafuso poderia não firme e era importante o acabamento também.

Era quase dezenove horas quando penduramos os últimos quadros, os da mãe foram para sala de estar, na sala de jantar, em seu quarto, no corredor. Ela ainda aproveitou nossa presença para fixar papeleiras e outras peças na cozinha.

Quando terminamos, retornarmos à sala e nos surpreendemos ao ver uma bandeja com chás e bolachinhas. Um carinho muito especial.

O aprendizado

A Arquitetura de Inclusão é para proporcionar bem-estar e melhorar a qualidade de vida de pessoas vulneráveis. Neste caso, quem é o vulnerável? O filho ou a mãe? Minha empatia estava ali o tempo todo no olhar daquela mãe, minha empatia estava com o filho também. Quem tem filhos com deficiências sabe medir exatamente a luta de uma mãe cuidadora e o esforço de um filho.

Há muitos arranjos possíveis, muitos detalhes, mas será sempre através do olhar amoroso que obteremos informações que poderão contribuir com o projeto.

Para não expor essa família, não fizemos fotos. A mãe era muito cuidadosa e protegia sua família, explicou-me que poderia estimular a paranoia em seu filho.

Saber compartilhar ambientes é uma arte, neles está contida a nossa subjetividade. É comum casais se separarem ao construírem sua casa. Nosso território registra nossa personalidade e é nosso espelho. Quando isso não ocorre, há sofrimento.

Tudo interage, também por isso é que não se pode esquecer dos cuidadores, pois ao cuidar de quem cuida, cuida-se também de toda família.

corações

Escritora, arquiteta e urbanista, MARILICE COSTI é Mestre em Arquitetura (Economia e Habitabilidade), consultora, mãe cuidadora. É arteterapeuta (AATERGS 072/0808). Foi editora-chefe da revista O Cuidador em 40 edições e coordena o Movimento Pró-Vida Assistida com familiares e amigos. 

São suas publicações: Como controlar os lobos? Proteção para nossos filhos com problemas mentais, A fábula do cuidador, Gatilho nas Palavras, Ressurgimento entre outras.

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