Quando uma FOLHA EM BRANCO ACOLHE

por: Marilice Costi

Lon surgiu na minha vida quando iniciei um trabalho voluntário. De longe, já sem cabelos devido ao tratamento, ficava atento às brincadeiras das demais crianças, mas não participava. Aparentava hiperatividade. Não obedecia às ordens e não estabelecia contato com facilidade. Arredio a qualquer convite para brincar, permanecia sozinho ou na companhia da mãe, a quem ele monopolizava as atenções exigindo exclusividade. Demonstrava, no entanto, inteligência e simpatia. Era um menino lindo!

Brincadeiras? Inventávamos na hora… Eram momentos deliciosos.

Aos pouquinhos, ele depositou confiança em mim e foi se entregando. Na primeira vez em que ele se dispôs a uma abertura interna, aproximou-se e pediu para brincamos. Coloquei vários materiais plásticos à sua disposição e ele escolheu pecinhas de montar. Durante o processo de criar, ele foi falando de si, de seus medos e conflitos.23-jun-08-lon-roberto-002-imagem-com-registro

Estabeleci um vínculo de amor com essa criança que foi além do terapêutico. Passei a ser sua cuidadora. E não só de Lon, mas de sua mãe, que não conseguia administrar a ansiedade frente à doença grave do filho. Então, eu lhe dava colo. Acolhia com carinho tentando passar esperança no abraço e, assim, acalmá-la. Tentava revesti-la de força especial para administrar a situação. Frequentemente, ela falava de seus sentimentos e eu a acompanhava também por telefone.

Numa ocasião, Lon desenhou a figura de um feto na minha agenda e ao ser provocado por mim, verbalizou: lá era muito melhor…

Nas sessões, eu permitia que ele dirigisse o trabalho: Lon era o médico e eu, sua paciente.

Brincando, ele expressava fielmente seu sentir. Eu tentava ajudá-lo a enfrentar com alegria a sua trajetória tão sofrida. Houve dias, em que ele focava numa só atividade durante um tempo muito maior do que eu pensava que ele seria capaz. O brinquedo lhe permitia transitar entre o imaginário e o real. Essa possibilidade fez com que ocorresse ressignificação de dores e das emoções negativas: surgiam sentimentos de esperança.

Emergiu uma riqueza de conteúdos dos processos de arteterapia que as suas idéias e emoções continham: o medo e a insegurança acerca da vida e da morte, suas expectativas e esperanças.

Foi numa das oficinas de arteterapia para cuidadores que o vi pela última vez acompanhado pela mãe. Lon participou e se integrou muito bem. Desenhou um coração e disse que ia levar para sua avó.

Quando eu soube que ele partira para sempre, não me sentia capaz de enfrentar a realidade… Surpresa e abalada, percebi-me sem preparo.

Na área de Oncologia pediátrica, a morte é sempre uma possibilidade prevista! Tal evento, eu tinha que entender! Mas em nossa cultura, como nos preparamos para a perda?

Pesarosa, mas segura de que o amor e o cuidado, que dispensei ao Lon, foi o que pude lhe dar de melhor na luta pela vida, fui surpreendida por um sentimento de tamanha dor, que me levou a um silêncio interno… de dias.

Onde encontrar apoio? Quem me cuidaria naquele momento?

Refugiei-me na escrita, em meu canto pessoal. Numa folha em branco derramei letras e lágrimas ao lembrar do tempo tão breve e da profundidade de nosso laço de afeto.

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AUTORA

Irene Espíndola é artista plástica com licenciatura em Pedagogia e especialização em Orientação Educacional e em Arteterapeuta (INFAPA). Vive em Santa Maria/RS.

Matéria publicada na revista O Cuidador, ed. 5 Ano I. Imagem autorizada.