O que fazer em caso de SURTO? Orientação aos familiares

por: Marilice Costi

A mãe de uma pessoa com transtorno mental me solicitou orientação, seu filho com esquizofrenia não quer se tratar. Além disso, a comunicação dos pais com ele está muito difícil.

Os pais sofrem muito ao receber qualquer diagnóstico relacionado a deficiências em seus filhos. A esquizofrenia, que pode ser paranoide, sempre foi assustadora. O “louco”, o “demente”, o “gravemente fora da casinha” remetem a todos àqueles manicômios onde as pessoas eram abandonadas. Hoje, não é mais assim. Os pais se dão conta é que o diagnóstico é apenas o início de um longo e delicado caminho de cuidados.

Se o doente não aceita o tratamento, ele também pode estar em estado psicótico. Ele dirá “a” e entenderá isso de acordo com a sua própria compreensão. E não há como dialogar com ele a não ser estando dentro do seu “a”. Falta escuta. Ele não consegue.

Não são todos os psiquiatras que têm habilidade para convencer alguém a se tratar. E isso também ocorre com muitos médicos em outras áreas. Quantas vezes isso não é motivo de dúvida e nos direcionamos para uma segunda opinião? Por que então, no caso de uma doença ainda estigmatizante em nossa sociedade, isso seria diferente?

Raramente os pais são acolhidos nesse momento de tanta dor. É importante que se ajudem mutuamente e que preservem sua relação, que tenham apoio de um terapeuta, que questionem tudo, tirem suas dúvidas com todos, procurem os amigos leais, mas não exponham seu filho a qualquer pessoa. Geralmente, os vizinhos percebem e se encolhem. No entanto, há momentos em que pedir a sua ajuda poderá ser necessário.

Quem assume quase sempre aquele ser – fruto de um amor que  saiu de suas entranhas – é a mãe, ou outra mulher (tia, prima, avó…). No entanto, quando os pais assumem, assumem pra valer!

Buscando equilíbrio

Buscando equilíbrio

Muito sofrida para todos, a internação vai impedir que ocorra o pior: um suicídio ou um homicídio. É uma decisão difícil. No entanto, os pais precisam ter certeza de estarem fazendo o melhor. Também necessitam compreender melhor seus sentimentos e toda a situação, para adquirirem a força e a coragem necessária para seguirem.

Nem sempre há psiquiatra disponível quando ocorre um surto. O que fazer então? É preciso encontrar o caminho. Por isso, já na primeira consulta com o médico, quando do diagnóstico, lembre de perguntar: O que faremos se ele piorar num feriado? O psiquiatra saberá qual é a linha de cuidado na cidade e os deixará mais tranquilos ao orientá-los.

Caso os pais não saibam o que fazer, será preciso encaminhá-lo para uma emergência psiquiátrica. Se houver reação contra à internação, precisarão de alguém que possa conter uma reação de agressividade. Na Defensoria que emitem a ordem para internar que irá para um cartório, onde rapidamente será  acionada a Brigada Militar para buscar o doente.

Ao chegar na emergência, se foi levado pela Brigada Militar, logo será atendido. Do contrário, a sala de espera é onde terão que aguardar algumas horas. O SAMU de sua cidade poderá informar melhor.

Se o doente não necessitar de internação compulsória, se ele for de comum acordo, é importante que, ao ser levado em algum automóvel, sente-se no banco traseiro, em carro sem quatro portas. E que alguém fique ali com ele. É preciso estar alerta para tentativas de fuga, que são naturais, mas neste caso, poderá ainda ocorrer um acidente de trânsito,  e isso deve ser evitado.

No caso de haver convênio de saúde, é preciso contatá-lo para saber como proceder, talvez haja ambulância disponível e com pessoas preparadas para buscar na residência e levar ao hospital. Mantenha um caderninho com seus registros. Escrever é sempre mais seguro do que buscar num celular.

Os pais não devem se assustar ao contatar com os brigadianos. Muitos deles estão acostumados a acolher pessoas em risco, no entanto, é sempre bom que a pessoa mais próxima do doente e que saiba ser firme o acompanhe para lhe dar mais tranquilidade.

Se o doente for interditado, os pais têm autonomia para decidir sobre a internação. Se não encontrarem vagas, exercerão o seu pátrio poder e irão à Defensoria Pública. Ali poderão exigir leito hospitalar, vaga que poderá ser também em um hospital geral. Muitos hospitais têm um número x de vagas, mas não gostam de correr riscos com esses atendimentos, negam que haja leito disponível. Para evitar tudo isso, existe uma Central de Leitos nos municípios, que gerenciam os leitos do SUS.

Pode ocorrer de não  haver vagas, daí é preciso aguardar um tempo em casa ou em algum PAM ou Centro de Emergência Psiquiátrica. Ali ele receberá um medicamento para que se acalme e descanse, ou os pais teriam que levá-lo para casa. Melhor que fique internado ali aguardando, pois retornar depois poderá ser mais complicado.

Recordo que estive numa espera dessas do SUS num dos dias mais frios no inverno em Porto Alegre. Passáramos, ele e eu, toda a manhã aguardando na sala de espera. Eu me sentia sem energia, os pés gelados, exausta. Ele corria risco de suicídio, mas como estava comigo e me pedira a internação, ele se sentia apoiado e tranquilo na minha companhia. Meu filho sempre teve esta segurança: a mãe vai dar um jeito! Ele não tem esquizofrenia, mas a bipolaridade aparecia e já conhecíamos os sintomas prévios de euforia para depois uma depressão grave.

Quando fomos atendidos, a psiquiatra foi muito delicada com ele e comigo. Questionou os medicamentos, disse que ia aumentar um deles, mas que ele ficaria ali até liberarem um leito. Ele concordou e ela nos disse: aguardem um pouquinho, que virá almoço para vocês dois. Foi a melhor comida de minha vida! Não tinha carne, mas o feijão e o arroz estavam bons, a couve cozida também. Cada garfada era um tantinho de calor que eu recebia e de ânimo para poder voltar para casa. Algo tão simples, um prato de comida quente num dia muito frio!

E se o doente não é menor e não é interditado, o defensor público solicitará documentos, laudos médicos, provas. É bom levarem tudo que tiverem sobre a doença e os cuidados com seu filho.  A Justiça tem tido enorme cuidado nas interdições e com razão! existem familiares que pedem a interdição de alguém apenas porque querem ficar com seus bens, sua herança. Não se retira a cidadania de alguém adoecido, a interdição é um longo processo, bastante complexo de se fazer, leva tempo e nem sempre ela será total, muitas vezes o juiz a torna parcial ao considerar que o doente pode administrar parte de sua vida. E é bem melhor que seja sempre assim.

Sempre é bom conversar com um advogado de família, pois dependendo da cidade, os procedimentos podem ser um pouco diversos. Um local também que pode orientar é a Promotoria dos Direitos Humanos, em cidades pequenas, estes dois órgãos funcionam muitas vezes no mesmo prédio.

É bom que os pais tenham sempre em mente que todos querem salvar uma pessoa em risco de vida ou que pode colocar outra pessoa na mesma situação. Se ocorrer algum acidente, ele poderá ir ao Manicômio Judiciário. É sempre melhor evitar o pior, pois o doente não tem ideia do que faz quando está em estado psicótico, em surto.

Eu diria aos pais que não esperem melhora. Sem medicamento adequado, a tendência é que o doente fique cada vez pior. Muitos deles escutam vozes de comando negativas (que incitam ao suicídio ou ao homicídio). Eles poderão se machucar muito ou machucar alguém, poderão matar no intuito de se defenderem de quem acreditam possa lhe fazer muito mal. Daí que é preciso agir.

Sem perder a esperança por dias melhores, saibam que a internação auxilia no acerto da medicação, pois existem medicamentos que exigem controle de sangue semanal ou controle de sua ação no fígado, por exemplo. O psiquiatra vai saber como deve proceder e os pais têm o direito de receber todos os esclarecimentos sobre o tratamento de seu filho.

Pais amorosos sempre cuidam dos seus em momento de perigo. É fundamental que se sintam seguros de que a hospitalização será para o bem de todos. Seu filho entenderá tudo quando ele estiver melhor. Ele saberá que foi cuidado porque é amado, por isso é que o protegeram.

 

Marilice Costi é ESPECIALISTA EM arteterapIA, ESCRITORA E ARQUITETA COM MESTRADO EM ECONOMIA E HABITABILIDADE.
há anos acolhe familiares, é mãe cuidadora. TEM 4 FILHOS, DOIS NETOS E UM BISNETO. Hoje seu filho VULNERÁVEL está muito bem, adquiriu cidadania e aprendeu a administrar muitos de seus conflitos. Parte de Sua experiência foi relatada no livro “Como controlar os lobos? Proteção para nossos filhos com problemas mentais”, encontrado também no site abaixo. Escreve o segundo livro neste tema.
além de acolher familiares, ela orienta quanto ao ambiente familiar, ao espaço do cuidador contratado, quanto aos territórios necessários a cada um. Sua arquitetura é de Inclusão.
O trabalho de Marilice está no site da SANA ARTE – cuidados integrados, (www.sanaarte.com.br). Contate-a se desejar saber mais. Ou participe da conversa no DISQUS, abaixo.