Mães, ROMPAM o silêncio!

por: Marilice Costi

– Não sei o que seria de nós se não fossem as mães ao nosso redor… Somos os anjos da guarda uma da outra – escrevi no seu Facebook. E ela respondeu: Somos anjos de uma asa só. Juntas podemos voar!

Recebi um convite: Vamos tomar um café? Ela não era uma pessoa desconhecida, era amiga, guerreira, cuidadora, lutando em nosso Movimento Pró-vida Assistida. Senti que aquele convite tinha algo mais. Esta mãe precisava conversar, precisava de meus ouvidos pelo menos. Mais dos meus ouvidos, porque ela é muito forte. E era verdade. Ela havia levado seu filho com esquizofrenia refratária para morar com ela, queria tentar mais uma vez. Eu a avisara dos riscos, já conhecia a sua história. Quero tentar, ela disse, se não der, vou mudar a rota total. Mas tenho que tentar, é meu filho.

E passou aproximadamente um mês. Neste período, ele esteve internado por uns quinze dias e voltou para casa. Ela sempre com esperança. E ontem, disse-me, ele me esbofeteou duas vezes, quebrou um ventilador, ameaçou me matar. Também lhe disse que não suporta sua vida e que a culpa é sempre dela: da mãe. A mãe é o depositário de sua insanidade, de sua compulsividade, de sua agressividade, de tudo em sua vida. A onipotência presente, o desejo de ter tudo sem esforço algum, o querer além das condições da família.

O que é feito para proteger esta mãe? Lei Maria da Penha? Pedido de medida protetiva, impedi-lo de 021369-o-cuidador-32_pc01_plate102_1022-5se aproximar dela? Ela recém iniciou um processo de interdição. Se ela o interdita e ele a mata, ele não será considerado responsável por seus atos… Enfim, em sua doença, é capaz de desgraçar uma família.

Pensei logo em procurar outra mãe para lhe pedir o endereço da clínica que fica na área metropolitana onde seu filho, também com esquizofrenia, mora. Logo ela informou os dados e incluiu junto seus telefones. Se ela precisar, escreveu. E desejou boa sorte.

Envelhecemos, aposentamos e quem cuida dessas mães? As mães. As amigas. Os poucos homens sensíveis a esse tipo de dor. Não há dinheiro que pague isso. Dar o endereço para uma mãe é dar-lhe esperança de descanso.

Então o nosso papel. Nosso, de cidadãos que devem ajudar a quem precisa e do Estado que deve proteger essa mãe muito antes que seu filho, em sua doença crônica e grave, cometa um homicídio. O que o Estado faz?

Proibir o agressor de se aproximar da vítima? Para esse tipo de situação, a Lei Maria da Penha não funciona, apesar de sabermos que muitas mães fazem queixa dos filhos agressores ali.  E depois, quem acolhe a dor dessas mães?

Em julho de 2013, estive em um Posto de Atendimento Médico com meu filho e aguardei horas na sala de espera. Sentamos perto de uma mãe, que havia sido machucada. Perguntei-lhe se ela não estava com raiva, ela disse não posso, ele é meu filho.

Fiquei pasma e olhei para o meu filho, que aguardava consulta e lhe perguntei: Nós não sentimos raiva um do outro? E ele respondeu: Claro que sim! Já tive muitas vezes raiva de minha mãe e ela de mim. Mas depois passa. A senhora pode sim sentir raiva de seu filho… e eu nunca bati na minha mãe.

Ela nos olhou com surpresa. Dei-lhe meu telefone, mas sabia que ela nunca me ligaria.

Mães carregam a responsabilidade do cuidado. Mas quando elas se encontram em perigo, onde ir contar do medo de um pedaço de si mesma, de alguém que viu crescer, que muito amou e que agora a machuca? Filho ameaçou, deveria perder os cuidados da mãe. Os valores sociais familiares perdidos?

E o Estado, cadê o seu papel de protetor de seus cidadãos?

______________________________________________________

AUTORA

Marilice Costi participa do Movimento Pró-Vida Assistida (MPVA) desde a primeira reunião de mães e amigas de pessoas com transtornos mentais em 2007,da AGAFAPE.  A luta dessas mães permanece em Institutos e Associações de Porto Alegre e do interior do Estado do RS. Hoje, agrega também os autistas e outras síndromes. Estimular a construção de moradias para pessoas com deficiência psicossocial é seu foco principal.

Esta matéria foi publicada na revista O Cuidador – edição 32, Ano VI. p. 5.