Empatia é um dom que nos direciona ao cuidado?

por: Marilice Costi

É possível cuidar sem saber como o outro se sente? Pode-se aprender a cuidar e a desenvolver a empatia? Há quem tenha empatia desde criança. Há quem sempre se direcione ao cuidado. Há quem é treinado a cuidar. As mulheres sempre foram direcionadas ao cuidado. Atualmente, os homens penetram nessa área tão delicada. Há quem aprende apenas quando sente a dor em si mesmo, só então a compreendem no outro. E existe quem nunca vai ter empatia, são os sociopatas.

Perceber o outro é importante num cuidador e em quem é cuidado. Olhar-se no espelho e ver ali o ser humano que se é. Não a imagem física, exigida pela mídia, valorizada pelo exterior, mas o que somos como ser humano. Não é o que importa?

Quem tem empatia possui dentro de si o impulso na direção do cuidado. No entanto, para cuidar é preciso saber fazer muitas coisas! A competência no cuidado é obtida através de experiências de vida ou de cursos de capacitação. Há muitas técnicas que facilitam o trabalho ao cuidar de idosos, exigindo menor esforço de quem cuida.

Mãos unidas a outras mãos

O que venho percebendo é que, mesmo que os profissionais tenham empatia, parece que para eles, as mães das pessoas com qualquer deficiência é invisível. Tive diversas experiências. Recebo muitas ligações de mães solitárias em sua dor. A pergunta que não cala é: Quem cuida dessas mães?

Possuo modelos, além de minha mãe na APAE de Passo Fundo, o que vim a compreender muito mais tarde, tive o olhar afetuoso de Alda Rodriguez Leite, fonoaudióloga. Outra que foi modelo para mim foi Teonila Romani, psicóloga de meu filho. E assim, tive muitos “anjos” que passaram pela minha vida e que se foram cedo demais. Diferentemente de muitos profissionais, Alda e Teonila estavam sempre ali, pelo telefone em qualquer horário. Estar presente mesmo à distância era o que importava.

Somos uma caixinha de vida, de surpresas, de remédios, de histórias, de fotografias, de cartas, de cores, de dores… No entanto, quando  se cuida intermitentemente de alguém, a caixinha se esvazia de alegrias e a vida que nos alimenta  se esvazia, é o esgotamento, a exaustão. Tão importante sentir a presença e a constância dos afetos. O acolhimento pode ser um amigo, um profissional, um amor. O importante é estar disponível na hora da dor. Elas era sempre as mesmas em qualquer momento. Presença nos atendimentos de meu filho com deficiências, escuta atenciosa com todas as mães. Seus perfis têm muito do que tanto nos falta: a escuta, o acolhimento, a busca conjunta de soluções viáveis.

Empatia não é importante apenas para que se cuide de alguém. Empatia é fundamental para que se cuide também de quem cuida de alguém. E vale aquele provérbio tão antigo e tão verdadeiro: nenhum saco vazio para em pé.

É preciso que se cuide e que se dirija o olhar – com empatia – também aos cuidadores. Cuidar de quem cuida é fundamental, é a base, porque – sem cuidados – essa pessoa que parece tão forte poderá se tornar outro vulnerável.

 

Marilice Costi _________________________________________________

Arteterapeuta (AATERGS 072/0808), escritora, professora, arquiteta e urbanista, é mestre em Arquitetura (Economia e Habitabilidade), consultora, mãe cuidadora. 

Dá palestras e workshops, oficinas e workshops a públicos diversos. (Veja suas Oficinas aqui.) Editou mais de 6 anos as 40 edições da revista O Cuidador e criou as imagens de suas capas.

Autora de diversas publicações. Leia a opinião dos leitores de: Como controlar os lobos? Proteção para nossos filhos com problemas mentais, A fábula do cuidador, TemposFrágeis, Ressurgimento-Prêmio Açorianos 2006 e outros.

Dialogue com a autora MARILICE COSTI nos comentários abaixo.