De celulares ao polvo – intervenções em UTIs Neonatais

por: Marilice Costi

Resposta aos textos sobre prematuros em incubadoras, que circularam nas mídias sociais durante o mês de abril de 2017.

Os recém-nascidos pré-termo instigam a todos nós sobre como sobrevivem e de que forma isto acontece, pois parecem caminhar na contramão de regras básicas naturais de sobrevivência. Esses pequeninos surgem para o mundo, muitas vezes, cabendo na palma de uma mão e provocam muitas inquietações diante de uma possível fragilidade frente a tantas solicitações que fazem parte de seus cuidados.

Imagens nas redes sociais que introduzem brinquedos ou ideias e sugerem maior proximidade com a família, remetem nosso imaginário a certa tranquilidade e conforto e passam a ser bastante divulgadas. Trazem a ideia de que ao introduzirmos brinquedos junto a tantos aparelhos que acompanham estas pequenas crianças em suas incubadoras, as exigências provocadas por sondas, exames, vão se diluindo na atenção a elas dirigida.

Arquivo de Família: Bebê em incubadora

Arquivo de Família: Bebê em incubadora

Vimos nas ultimas semanas, a divulgação de um polvo feito em crochê que parece aconchegar um prematuro. Brinquedo colorido, com seus tentáculos colocados sobre o corpo do bebê como um provável substituto do cordão umbilical. Ora, sabemos todos que o bebê é senhor de seu corpo e de suas sensações – o que indica que ele, de maneira sensorial, percebe as mudanças que se estabeleceram devido ao seu nascimento antecipado. Não convive mais com o ritmo do corpo materno, nem sente a temperatura que esteve presente em tantos dias de gestação. Ele perdeu a proteção das membranas uterinas e a alimentação realizada pela placenta e também o cordão umbilical (um de seus primeiros brinquedos, sim, no ambiente uterino). Este último, temos que lembrar, possui pulso, um ruído provocado pela corrente sanguínea, é úmido, com uma textura muito diferente da que os tentáculos de crochê têm.

Ao observamos tais imagens sedutoras do bebê com o polvo sobre seus corpos, damo-nos conta que houve também um cuidado de alguém ao posicionar os bebês dentro da incubadora, na maioria das vezes de lado, com braços e pernas flexionados. Este posicionamento é chamado de “organizado”, pois permite relaxamento, aproximação das mãos junto ao rosto, organização da linha média, corporal do bebê o que vem sendo indicado há muitos anos nos cuidados de um pré-termo. O polvo que o acompanha cumpre seu papel de colorir e de estimular a apresentação da preensão palmar do agarrar, presente no comportamento natural do bebê intraútero e que permanece após o nascimento. Independente de termos tentáculos do polvo, rolinhos colocados para apoiá-lo, pequenas almofadas utilizadas para seu posicionamento ou, até mesmo a sonda, o dedo da mãe ou do pai, que são por ele tocados, agarrados como se representassem ancoras capazes de garantirem sua maior tranquilidade.

Buscar estratégias de humanização em cuidados neonatais é fundamental e vem sendo objeto de estudos e pesquisas em todo mundo há algumas décadas. Seus resultados quanto ao nível de desenvolvimento a cada semana gestacional, sobre capacidades sensoriais, clínicas e e a importância da fisiologia própria da prematuridade têm sido balizas que apoiam as estratégias de sua atenção enquanto estas crianças se encontram no cuidado na UTI Neonatal.

O uso de gravações em celulares com a voz da mãe, outra estratégia discutida por pesquisadores e nas redes sociais,  tem indicações em alguns casos. É quando as mães que estão impedidas de permanecerem com seus bebês na UTI Neonatal por se encontrarem internadas por complicações gestacionais ou advindas do parto ou pela necessidade de cuidarem dos demais filhos. Nessas situações, uma pessoa familiar, preferencialmente o pai do bebê ou uma das avós – alguém escolhido pela mãe- poderá se dirigir à maternidade levando consigo a mensagem da mãe e, após explicar a sua ausência, apresentar a gravação ao bebê com um cuidado essencial. Este cuidado é de que o bebê, nesse momento esteja em “estado alerta”- acordado, movimentando-se, olhos curiosos, disponível à voz materna. É quando a presença próxima de alguém da equipe é oportuna para reconhecer possíveis sinais de estresse provocados pelo estímulo afetivo que o bebê experimenta. A partir de então podem ser necessários pequenos manejos contingentes tais como colocar as mãos de forma firme em concha, sobre o corpo do bebê, sem estimulá-lo com palavras, sem acariciar, apenas “contendo” seu corpo.

Acreditamos que a melhor estratégia de humanização nos cuidados intensivos neonatais continua sendo a presença da família como parceira da equipe. Somente ela é capaz de garantir a continuidade das histórias familiares, do temperamento/jeito materno dos pais interagirem com seu pequenino, o que lhe oferecerá a experiência de pertencimento ao grupo familiar.

Um bebê na UTI Neonatal deve estar sempre sob o olhar de uma equipe capacitada na compreensão de seus momentos evolutivos tão especiais para a criança e capazes de entender o que deseja um bebê no período que necessita de cuidados hospitalares.  Para dar andamento ao seu sofisticado processo de comunicação, os profissionais necessitam dessa parceria. A presença próxima, especialmente das figuras parentais, com seus movimentos afetivos junto ao bebê, suas preocupações e suas alegrias, permitirão escolhas mais acertadas na prática da atenção humanizada junto àqueles bebês que exigiram sua permanência em uma unidade de tratamento intensivo neonatal, quando a equipe da UTI neonatal é capaz de fazer a leitura da comunicação do bebê para melhor cuidar dele e para que interaja saudavelmente com a sua família e que lhe possibilite mais segurança em um ambiente totalmente desconhecido para ele.

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DENISE STREIT MORSCH é doutora em Psicologia com pesquisa no tema das mães-canguru, consultora do MS. Escreveu esse texto especialmente para a plataforma CUIDAQUI.com .